sexta-feira, 8 de abril de 2011
INTERNET GANHA FORÇA NAS COMPRAS
A pesquisa O Observador 2011 mostrou com números uma tendência que se mostra cada vez mais forte no Brasil: o uso da internet como canal de compras.
O levantamento constatou que 15% dos entrevistados já consideram os sites de compras coletivas como a melhor forma de comprar produtos e serviços, e que 14% afirmam que utilizam redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter para buscar informações sobre promoções.
Embora a maioria (39%) tenha dito que não confia em sites de compras coletivas, 25% consideram que eles são o futuro das compras pela internet.
Essa percepção sobre o crescente papel dos sites no consumo está presente em níveis semelhantes nas regiões do País – no Nordeste, foi indicada por 24% dos pesquisados; no Norte e Centro-Oeste por 23%; no Sudeste por 28%; e no Sul por 23%.
É um sentimento que aparece também em diferentes classes sociais. Na classe AB, 38% dos entrevistados veem os sites de compras coletivas como o futuro das compras; na classe C a porcentagem é de 25%; e na DE 17% fazem essa avaliação.
Fonte: http://oobservadorbrasil.blogspot.com/2011/04/internet-ganha-forca-nas-compras.html
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Consumo e Publicidade
Os motivos ou razões pelas quais somos levados a comprar, desejar determinados objetos e marcas, frequentar lojas e shoppings ou preferir determinados serviços em detrimento de outros são um grande mistério. Existem vários pensadores com várias teorias acerca deste segredo, assim como pesquisadores (de mercado, principalmente) que buscam compreender as escolhas dos consumidores para que possam entender suas preferências e assim, criar demandas, adaptar produtos e serviços criando consumidores mais satisfeitos e comerciantes/ empresários muito mais felizes.
Será que compramos estritamente por necessidade? Instinto? Pressão social? Será que a utilidade dos objetos sempre é levada em conta na hora da realização de uma escolha? Ou será que queremos expressar outros sentimentos, como por exemplo… poder?
Rocha (2006) afirma que “pesquisas para conhecer segredos de consumidores é parte dos esforços para solucionar problemas de vendas, marcas e empresas, pois saber o segredo pode significar a diferença entre sucesso e fracasso dos produtos e serviços” (p.85)
Dessa maneira, pode-se dizer que há muito capital envolvido na produção de um produto, assim como na sua divulgação. Os capitais investidos, como capital humano, capital financeiro, o tempo e a energia são alguns dos fatores que estão intimamente envolvidos na produção de um objeto que deseja ter em seu guarda-roupa, na sua casa ou no seu organismo.
A publicidade surge como um meio de tornar essa relação possível e desejável por você, consumidor. Ela que cria um código gerador de categorias como necessidade, utilidade e desejo.
“A publicidade traduz a produção para que esta possa virar consumo, e ensina modos de sociabilidade enquanto explica o que, onde, quando e como consumir. E ainda mais: é a publicidade que sustenta, em larga medida, a possibilidade de sermos os alegres receptores cotidianos das diferentes mídias” (Rocha, 2006, p.11)
Devido a esta característica educadora, a publicidade passa a ser objeto de pesquisa e análise para muitos pesquisadores, pois a sua narrativa pensa o consumo como um sistema cultural. Estudar as representações encontradas nas narrativas publicitárias acaba sendo uma fonte de informação para decifrar o imaginário “que informa práticas de consumo” (Rocha, 2006, p.12). Ou seja, a publicidade dá sentido ao consumo, e por isso está entre as principais “produtoras de sistemas simbólicos presentes em nosso tempo”.
Depois de assistir um comercial bem realizado, fotografia, música, edição, filmagem… não se compra apenas um relógio, se compra um Cartier. Não se come apenas um chocolate, se come um Baton, um Sonho de Valsa, um Serenata de Amor. Não se compra um refrigerador e sim uma Brastemp. Ao ver um par de chinelos de borracha nos pés, antes apenas usadas pelas camadas mais populares da sociedade, após uma grande campanha publicitária vira moda, tornando-se produto de exportação, afinal de contas “Havaianas, todo mundo usa”, e quem não usava, seja por desconhecimento ou preconceito, hoje usa e coleciona.
“O fato é que o consumo perpassa a vida social do nosso tempo com uma força que poucos fenômenos possuem, e é através do sistema publicitário que ele adquire sentido social, pois as marcas, os bens, os produtos e serviços ganham as suas identidades nesse discurso, e, com elas, uma existência concreta em nossas vidas” (Rocha, 2006, p.11)
Esses produtos e o que representam (os valores que lhe são atribuídos) acabam definindo grupos e também nossa sociedade, contribuem para identificar eras, marcar décadas e momentos de uma dada sociedade. Os anúncios nos vendem estilos de vida, status, poder, emoções, experiências, a vontade e o desejo vão muito mais além de consumir o que realmente está envolvido no comercial. O anúncio dispõe de um amplo espaço de especulação, onde a criatividade impera.
Outros fatores, sobretudo os significados que os próprios atores atribuem aos bens, definem de forma positiva ou negativa produtos e serviços, colocando na moda ou fora dela determinados elementos, atribuindo ou retirando valor de marcas ou grifes, e este movimento é fundamental para entender como o consumo se realiza na vida social.
“A PUBLICIDADE É O MODO PRIVILEGIADO DE EXPRESSÃO DO CONSUMO”
Fonte:
ROCHA, Everardo. Representações do consumo: estudos sobre a narrativa publicitária. Rio de Janeiro, Mauad, 2006.
Será que compramos estritamente por necessidade? Instinto? Pressão social? Será que a utilidade dos objetos sempre é levada em conta na hora da realização de uma escolha? Ou será que queremos expressar outros sentimentos, como por exemplo… poder?
Rocha (2006) afirma que “pesquisas para conhecer segredos de consumidores é parte dos esforços para solucionar problemas de vendas, marcas e empresas, pois saber o segredo pode significar a diferença entre sucesso e fracasso dos produtos e serviços” (p.85)
Dessa maneira, pode-se dizer que há muito capital envolvido na produção de um produto, assim como na sua divulgação. Os capitais investidos, como capital humano, capital financeiro, o tempo e a energia são alguns dos fatores que estão intimamente envolvidos na produção de um objeto que deseja ter em seu guarda-roupa, na sua casa ou no seu organismo.
A publicidade surge como um meio de tornar essa relação possível e desejável por você, consumidor. Ela que cria um código gerador de categorias como necessidade, utilidade e desejo.
“A publicidade traduz a produção para que esta possa virar consumo, e ensina modos de sociabilidade enquanto explica o que, onde, quando e como consumir. E ainda mais: é a publicidade que sustenta, em larga medida, a possibilidade de sermos os alegres receptores cotidianos das diferentes mídias” (Rocha, 2006, p.11)
Devido a esta característica educadora, a publicidade passa a ser objeto de pesquisa e análise para muitos pesquisadores, pois a sua narrativa pensa o consumo como um sistema cultural. Estudar as representações encontradas nas narrativas publicitárias acaba sendo uma fonte de informação para decifrar o imaginário “que informa práticas de consumo” (Rocha, 2006, p.12). Ou seja, a publicidade dá sentido ao consumo, e por isso está entre as principais “produtoras de sistemas simbólicos presentes em nosso tempo”.
Depois de assistir um comercial bem realizado, fotografia, música, edição, filmagem… não se compra apenas um relógio, se compra um Cartier. Não se come apenas um chocolate, se come um Baton, um Sonho de Valsa, um Serenata de Amor. Não se compra um refrigerador e sim uma Brastemp. Ao ver um par de chinelos de borracha nos pés, antes apenas usadas pelas camadas mais populares da sociedade, após uma grande campanha publicitária vira moda, tornando-se produto de exportação, afinal de contas “Havaianas, todo mundo usa”, e quem não usava, seja por desconhecimento ou preconceito, hoje usa e coleciona.
“O fato é que o consumo perpassa a vida social do nosso tempo com uma força que poucos fenômenos possuem, e é através do sistema publicitário que ele adquire sentido social, pois as marcas, os bens, os produtos e serviços ganham as suas identidades nesse discurso, e, com elas, uma existência concreta em nossas vidas” (Rocha, 2006, p.11)
Esses produtos e o que representam (os valores que lhe são atribuídos) acabam definindo grupos e também nossa sociedade, contribuem para identificar eras, marcar décadas e momentos de uma dada sociedade. Os anúncios nos vendem estilos de vida, status, poder, emoções, experiências, a vontade e o desejo vão muito mais além de consumir o que realmente está envolvido no comercial. O anúncio dispõe de um amplo espaço de especulação, onde a criatividade impera.
Outros fatores, sobretudo os significados que os próprios atores atribuem aos bens, definem de forma positiva ou negativa produtos e serviços, colocando na moda ou fora dela determinados elementos, atribuindo ou retirando valor de marcas ou grifes, e este movimento é fundamental para entender como o consumo se realiza na vida social.
“A PUBLICIDADE É O MODO PRIVILEGIADO DE EXPRESSÃO DO CONSUMO”
Everardo Rocha
Fonte:
ROCHA, Everardo. Representações do consumo: estudos sobre a narrativa publicitária. Rio de Janeiro, Mauad, 2006.
segunda-feira, 28 de março de 2011
ARRIVAL CITY
Saiu ONTEM no Globo (27/02/2011), na coluna do Elio Gaspari: acaba de sair nos EUA um livro chamado "Arrival City" (Cidade de Chegada - como a maior migração da história está mudando a nossa História), do jornalista anglo-canadense Douglas Saunders.
Trata-se de um estudo aprofundado sobre um tipo específico de comunidade das grandes cidades, conhecidas no Brasil por "favelas". Mas ele estuda comunidades similares na Egito, China e Turquia, por exemplo.
Na notinha da coluna do Elio Gaspari, lemos: "Nelas aglomeram-se algo como 800 milhões de pessoas que deixaram o campo em busca do futuro nas grandes cidades, ou descendem de pessoas que fizeram essa rota. O trabalho de Saunders vem sendo festejado pela audácia de sua conclusão: 'A periferia é o novo centro do mundo'. Seu livro já foi comparado ao 'Morte e vida de grandes cidades', de Jane Jacobs, que mudou a maneira de pensar as políticas urbanas a partir dos anos 60. Descrevendo essas comunidades, Saunders mostra que nelas não vivem apenas miseráveis marginalizados, mas empreendedores emergentes de um mundo novo, uma nova classe média global. O mundo pagou caro por não entender a essência das migrações dos séculos XIX e XX. Não entendê-las agora seria um desastre. É emocionante a sua narrativa da transformação do Jardim Ângela, um pedaço do inferno paulistano nos anos 80, na comunidade que é hoje. Quando a periferia tem acesso ao crédito, escolas, empregos e polícia livre de demofobia, ela decola. E quando os seus moradores são pura e simplesmente transferidos para conjuntos residenciais, geralmente as iniciativas fracassam."
Elio Gaspari continua dando uma alfinetada na demora da chegada de livros como esses no Brasil: "Como o livro de Jane Jacobs levou 48 anos para ser editado no Brasil, não custa avisar que a edição do e-book (em inglês) custa US$ 13,99. De graça, há um artigo de Saunders no sítio da revista Foreign Policy."
O link para o artigo citado segue abaixo:
http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/03/23/arrival_cities
Trata-se de um estudo aprofundado sobre um tipo específico de comunidade das grandes cidades, conhecidas no Brasil por "favelas". Mas ele estuda comunidades similares na Egito, China e Turquia, por exemplo.
Na notinha da coluna do Elio Gaspari, lemos: "Nelas aglomeram-se algo como 800 milhões de pessoas que deixaram o campo em busca do futuro nas grandes cidades, ou descendem de pessoas que fizeram essa rota. O trabalho de Saunders vem sendo festejado pela audácia de sua conclusão: 'A periferia é o novo centro do mundo'. Seu livro já foi comparado ao 'Morte e vida de grandes cidades', de Jane Jacobs, que mudou a maneira de pensar as políticas urbanas a partir dos anos 60. Descrevendo essas comunidades, Saunders mostra que nelas não vivem apenas miseráveis marginalizados, mas empreendedores emergentes de um mundo novo, uma nova classe média global. O mundo pagou caro por não entender a essência das migrações dos séculos XIX e XX. Não entendê-las agora seria um desastre. É emocionante a sua narrativa da transformação do Jardim Ângela, um pedaço do inferno paulistano nos anos 80, na comunidade que é hoje. Quando a periferia tem acesso ao crédito, escolas, empregos e polícia livre de demofobia, ela decola. E quando os seus moradores são pura e simplesmente transferidos para conjuntos residenciais, geralmente as iniciativas fracassam."
Elio Gaspari continua dando uma alfinetada na demora da chegada de livros como esses no Brasil: "Como o livro de Jane Jacobs levou 48 anos para ser editado no Brasil, não custa avisar que a edição do e-book (em inglês) custa US$ 13,99. De graça, há um artigo de Saunders no sítio da revista Foreign Policy."
O link para o artigo citado segue abaixo:
http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/03/23/arrival_cities
sábado, 12 de março de 2011
Dica: Blog FORMAS DO CONSUMO
Formas do Consumo é o blog da Forma Elementar. Alimentado por Daniel Portugal e Julia Salgado, é um espaço para se discutir o consumo contemporâneo em todas as suas dimensões, deixando de lado preconceitos e extremismos. Entendemos que, no consumo, pessoas, coisas e marcas interagem de formas sempre renovadas, em um jogo complexo que envolve razão, sensação, emoção e desejo. O consumo articula, portanto, dimensões humanas que não se prestam a abordagens simplistas obcecadas em reduzir tudo a gráficos e números.
Acessem!
Acessem!
sexta-feira, 11 de março de 2011
Os usos da Antropologia
Cada vez mais os antropólogos estão sendo cobiçados a atuarem em algumas frentes nunca antes imaginadas. Trabalhei em um projeto da MJV Tecnologia e Inovação, onde a pesquisa de cunho etnográfico (e não etnografia nos moldes malinowiskianos) fazia parte da metodologia empregada. Os designers querem entender os conceitos, usos, valores, identidades e para isso acabam se utilizando do olhar antropológico para tal.
Abaixo segue uma matéria produzida pelo Mundo SA da GloboNews bem elucidativa.Conceito de ‘Design Thinking’ tenta entender os desejos dos consumidores
Empresas mergulham no mundo dos usuários dos seus produtos para que estes tenham mais chances de serem aceitos.
"Consumidores, os usuários de produtos, estão na moda. Nesta onda de descoberta, ou redescoberta, da importância que eles têm para uma empresa, surge um conceito que está dando o que pensar: o Design Thinking. É uma estratégia de sobrevivência em um mundo cercado de concorrentes por todos os lados. É entender profundamente o que as pessoas querem, mergulhar no mundo delas e sair dali com um produto com mais chances de ser aceito."
http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1650604-17665-315,00.html#
quinta-feira, 10 de março de 2011
Cultura material e padrão de consumo da “nova classe média”
Um primeiro relato etnográfico
Recebi, no meio da semana, um telefonema emocionado. A voz do outro lado, um tanto eufórica, falava de uma grande “bênção” que merecia ser comemorada. Decidiu preparar um “churrasquinho” no domingo seguinte para familiares e poucos amigos selecionados – grupo no qual me incluía. Perguntei se deveria levar algo, minha anfitriã respondeu que não. Tudo seria oferecido por ela – o que ocorre raras vezes. Com isso, deixou bem claro que o acontecimento era realmente especial.
Cheguei, no dia e na hora combinados, diante de uma casa simples, bem velha, pintada de cal branca, portas e janelas de madeira desgastadas com o tempo. No quintal da frente, um pequeno espaço com piso de cimento rachado, cadeiras de plástico e uma caixa de isopor dividiam o espaço com as plantas do jardim. A festa estava sendo preparada.
No fundo do quintal, uma pia de cozinha de alumínio, suspensa por pés de ferro, e uma grelha haviam se transformado em churrasqueira. De longe se podia sentir o cheiro inebriante da carne assando, sob os cuidados do churrasqueiro, irmão da anfitriã.
Ela me recebeu entusiasmada, um tanto esbaforida. “Não me beija que eu tô suada”, disse, enfática. Não me importei e a cumprimentei normalmente. Logo apontaram a caixa de isopor no canto do quintal. Apresentado o caminho para as bebidas, esperaram que eu me sentisse completamente à vontade.
A anfitriã começou a narrar a história da tal benção recebida pelo seu irmão mais novo, motivo do evento: uma moderníssima geladeira frostfree. Eu e alguns outros fomos convidados a adentrar a casa simples.
“Não repare na casa não, ela é velha, e a única coisa bonita é a minha nova geladeira branca na cozinha, é a única coisa que presta”, desculpou-se ela, de antemão.
Achei curioso tanta ênfase à cor branca da geladeira. Até o momento, eu nunca havia reparado nessa forma descritiva de fazer referência a eletrodomésticos.
Entramos e seguimos por um pequeno corredor em direção à cozinha, que ficava logo após a sala. A anfitriã apontou a geladeira, enorme, de alta tecnologia, com luzes azuis piscando e um display digital na porta.
Lamentou-se: “Agora, minha cozinha nem combina com a geladeira nova. Ela é tão linda e minha cozinha, um horror”.
Abriu, sem hesitação, a parte inferior da geladeira. Mostrou todos os recursos do novo bem, riu de felicidade. Disse que parou para ler todo o manual porque não sabia mexer em tanta “tecnologia de geladeira” com tantos compartimentos diferentes para colocar os alimentos.
Estava realmente feliz porque a geladeira era frostfree. Sem precisar descongelar para limpeza, lhe pouparia trabalho. Abriu cada gaveta, porta, apontou o termostato eletrônico, e se emocionou. “Eu nunca imaginei que pudesse haver algo assim”. Fomos apresentados à geladeira e a tudo nela guardado.
Reparei que o plástico de proteção ainda estava nas alças externas nas portas, além do selo do Procel (indicando que era uma geladeira que poupava energia elétrica) e uma nota fiscal da garantia da loja. Perguntei por que ainda continuavam colados e logo veio a resposta, simples: “É pra proteger mais e não estragar”.
Claro. Ela queria que o novo item, o mais bonito e importante da casa, durasse muito e fosse conservado ao máximo. Afinal de contas, era um bem valioso.
Não satisfeita, abriu a porta do freezer e mostrou como o espaço interno era amplo. “Agora vou poder receber visitas e dar festas, pois as bebidas vão gelar. Vou poder fazer pavê, comprar sorvete, fazer gelo para o refrigerante. Agora, sim”, comemorou.
O tamanho e a capacidade do novo item adquirido, portanto, eram significativos para a sociabilidade dela, a reciprocidade do servir e receber bem. A grande geladeira serviria sua família, composta por um adulto – ela própria – e dois filhos, sendo uma criança e um adolescente. Era notório que aquele novo eletrodoméstico, devido a sua grande capacidade (entre outros fatores), seria um divisor de águas em seu cotidiano e em sua prática social.
Voltamos para o quintal. Hora de comer. As guarnições estavam servidas em potes plásticos em uma mesa improvisada: uma tampa de madeira forrada com toalha florida, em cima de um latão. A anfitriã se ocupou em nos servir, até que um novo grupo apareceu no portão. Como precisava recebê-los devidamente, ela organizou mais um tour até a cozinha. A história se repetiu algumas vezes até o fim da festa.
Quando vivenciei a situação descrita acima, comecei a imaginar a importância que um eletrodoméstico corriqueiro pode ter na vida de um grupo específico. O “objeto de desejo”, motivo da festa, era uma geladeira. Os argumentos favoráveis estavam visivelmente expostos: pouparia energia elétrica (o selo do Procel), havia um grande espaço interno suficiente para armazenar os alimentos (um valor para o grupo) e melhorar a recepção aos convidados (a dádiva de Mauss, 2003). Em suma, era moderna e traria conforto para aquela família.
A noção de conforto ligado à posse de eletroeletrônicos estava clara naquela narrativa, além do embelezamento e da modernização da casa, por meio desses mesmos objetos, como se fossem dotados de mana (Mauss, 2003).
Da mesma forma que minha anfitriã, milhares – talvez milhões – de pessoas de camadas populares no Brasil possuem a crença e percepção de mana em determinados objetos (em sua maioria, eletroeletrônicos). A posse e uso desses bens têm uma conseqüência que vai além do bem-estar, estetização e sensação de conforto, frequentemente subestimada ou ignorada: a "conta de luz" no fim do mês e sua adequação ao novo padrão de consumo. Reside aí meu problema inicial.
Por Hilaine Yaccoub
Recebi, no meio da semana, um telefonema emocionado. A voz do outro lado, um tanto eufórica, falava de uma grande “bênção” que merecia ser comemorada. Decidiu preparar um “churrasquinho” no domingo seguinte para familiares e poucos amigos selecionados – grupo no qual me incluía. Perguntei se deveria levar algo, minha anfitriã respondeu que não. Tudo seria oferecido por ela – o que ocorre raras vezes. Com isso, deixou bem claro que o acontecimento era realmente especial.
Cheguei, no dia e na hora combinados, diante de uma casa simples, bem velha, pintada de cal branca, portas e janelas de madeira desgastadas com o tempo. No quintal da frente, um pequeno espaço com piso de cimento rachado, cadeiras de plástico e uma caixa de isopor dividiam o espaço com as plantas do jardim. A festa estava sendo preparada.
No fundo do quintal, uma pia de cozinha de alumínio, suspensa por pés de ferro, e uma grelha haviam se transformado em churrasqueira. De longe se podia sentir o cheiro inebriante da carne assando, sob os cuidados do churrasqueiro, irmão da anfitriã.
Ela me recebeu entusiasmada, um tanto esbaforida. “Não me beija que eu tô suada”, disse, enfática. Não me importei e a cumprimentei normalmente. Logo apontaram a caixa de isopor no canto do quintal. Apresentado o caminho para as bebidas, esperaram que eu me sentisse completamente à vontade.
A anfitriã começou a narrar a história da tal benção recebida pelo seu irmão mais novo, motivo do evento: uma moderníssima geladeira frostfree. Eu e alguns outros fomos convidados a adentrar a casa simples.
“Não repare na casa não, ela é velha, e a única coisa bonita é a minha nova geladeira branca na cozinha, é a única coisa que presta”, desculpou-se ela, de antemão.
Achei curioso tanta ênfase à cor branca da geladeira. Até o momento, eu nunca havia reparado nessa forma descritiva de fazer referência a eletrodomésticos.
Entramos e seguimos por um pequeno corredor em direção à cozinha, que ficava logo após a sala. A anfitriã apontou a geladeira, enorme, de alta tecnologia, com luzes azuis piscando e um display digital na porta.
Lamentou-se: “Agora, minha cozinha nem combina com a geladeira nova. Ela é tão linda e minha cozinha, um horror”.
Abriu, sem hesitação, a parte inferior da geladeira. Mostrou todos os recursos do novo bem, riu de felicidade. Disse que parou para ler todo o manual porque não sabia mexer em tanta “tecnologia de geladeira” com tantos compartimentos diferentes para colocar os alimentos.
Estava realmente feliz porque a geladeira era frostfree. Sem precisar descongelar para limpeza, lhe pouparia trabalho. Abriu cada gaveta, porta, apontou o termostato eletrônico, e se emocionou. “Eu nunca imaginei que pudesse haver algo assim”. Fomos apresentados à geladeira e a tudo nela guardado.
Reparei que o plástico de proteção ainda estava nas alças externas nas portas, além do selo do Procel (indicando que era uma geladeira que poupava energia elétrica) e uma nota fiscal da garantia da loja. Perguntei por que ainda continuavam colados e logo veio a resposta, simples: “É pra proteger mais e não estragar”.
Claro. Ela queria que o novo item, o mais bonito e importante da casa, durasse muito e fosse conservado ao máximo. Afinal de contas, era um bem valioso.
Não satisfeita, abriu a porta do freezer e mostrou como o espaço interno era amplo. “Agora vou poder receber visitas e dar festas, pois as bebidas vão gelar. Vou poder fazer pavê, comprar sorvete, fazer gelo para o refrigerante. Agora, sim”, comemorou.
O tamanho e a capacidade do novo item adquirido, portanto, eram significativos para a sociabilidade dela, a reciprocidade do servir e receber bem. A grande geladeira serviria sua família, composta por um adulto – ela própria – e dois filhos, sendo uma criança e um adolescente. Era notório que aquele novo eletrodoméstico, devido a sua grande capacidade (entre outros fatores), seria um divisor de águas em seu cotidiano e em sua prática social.
Voltamos para o quintal. Hora de comer. As guarnições estavam servidas em potes plásticos em uma mesa improvisada: uma tampa de madeira forrada com toalha florida, em cima de um latão. A anfitriã se ocupou em nos servir, até que um novo grupo apareceu no portão. Como precisava recebê-los devidamente, ela organizou mais um tour até a cozinha. A história se repetiu algumas vezes até o fim da festa.
Quando vivenciei a situação descrita acima, comecei a imaginar a importância que um eletrodoméstico corriqueiro pode ter na vida de um grupo específico. O “objeto de desejo”, motivo da festa, era uma geladeira. Os argumentos favoráveis estavam visivelmente expostos: pouparia energia elétrica (o selo do Procel), havia um grande espaço interno suficiente para armazenar os alimentos (um valor para o grupo) e melhorar a recepção aos convidados (a dádiva de Mauss, 2003). Em suma, era moderna e traria conforto para aquela família.
A noção de conforto ligado à posse de eletroeletrônicos estava clara naquela narrativa, além do embelezamento e da modernização da casa, por meio desses mesmos objetos, como se fossem dotados de mana (Mauss, 2003).
Da mesma forma que minha anfitriã, milhares – talvez milhões – de pessoas de camadas populares no Brasil possuem a crença e percepção de mana em determinados objetos (em sua maioria, eletroeletrônicos). A posse e uso desses bens têm uma conseqüência que vai além do bem-estar, estetização e sensação de conforto, frequentemente subestimada ou ignorada: a "conta de luz" no fim do mês e sua adequação ao novo padrão de consumo. Reside aí meu problema inicial.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Opinião
Jornal O Globo - 14.08.2010
Acelerando a desordem :Apartamentos do PAC em Manguinhos viram lojas, bares e até açougue
Moradores de pelo menos uma dezena de apartamentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no complexo de Manguinhos, na Zona Nor te, estão transformando os imóveis que receberam gratuitamente do governo federal em estabelecimentos comerciais.
No Condomínio João Nogueira, é possível ver bares, quitandas, lojas de ferragens e bazares à beira da Avenida Suburbana. Há até um açougue com um frigorífico improvisado na sala de um dos apartamentos térreos. Pela regra, os imóveis não podem ser alugados, transformados em pontos comerciais ou modificados. O governo do estado, que atuou no local em parceira com a União, avisa que poderá retomar as moradias.
Os exemplos são muitos. Em outra unidade habitacional, há um bar com mesa de sinuca e uma jukebox, ao lado de prateleiras lotadas de doces e salgados. Pelo menos dois dos apartamentos do condomínio, que viraram pontos comerciais, são sublocados por R$ 300. Segundo as pessoas que exploram os negócios, os proprietários se mudaram para outras comunidades.
O condomínio tem 396 unidades habitacionais, cada uma com 42 metros quadrados. São dois quartos, sala, cozinha, banheiro e varanda. A obra foi parcialmente inaugurada em dezembro do ano passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e custou aos cofres públicos cerca de R$ 53,2 milhões.
O objetivo era beneficiar duas mil pessoas daquela comunidade. A maior parte dos estabelecimentos está funcionando na varanda e na sala dos apartamentos térreos. Mas há quem utilize todo o espaço nas instalações comerciais.
- Não moro no apartamento. Aqui é só comércio. Eu pago um aluguel de R$ 300 a uma moça que mora em Saracuruna com a mãe doente.
O apartamento dela ficou vazio e eu não perdi tempo. Na verdade, eu moro em um outro apartamento que ganhei do governo aqui mesmo, contou uma comerciante que atende o público em um dos estabelecimentos.
Outro dono de negócio diz que suas vendas crescem nos fins de semana quando amplia o número de clientes, espalhando mesas na calçada.
- As mesas ficam cheias e a cerveja rola a noite toda, disse ele, que é dono do apartamento.
Segundo alguns moradores, traficantes estão cobrando uma taxa mensal de R$ 15 a R$ 20 para garantir a segurança dos estabelecimentos porque, há 20 dias, foi registrado um caso de roubo.
Isso começou após a invasão de uma loja em que o comerciante perdeu R$ 500. O vigia nem sai da boca de fumo. À noite, ele fica lá em cima vendo tudo que acontece. Durante o dia, nem vemos, mas agora mesmo ele está de olho contou um dos comerciantes.
Arquiteto de obra não vê gravidade
Antes da mudança para um dos apartamentos, o morador teve que participar de um curso de 15 horas, com no mínimo 75% de presença. Caso contrário, ele não receberia as chaves.
Nas palestras, eles são informados que não podem alugar o apartamento nem fazer modificações fora do padrão. De acordo com a Empresa de Obras Púbicas (Emop), órgão do governo do estado, uma equipe do PAC social será enviada na próxima terçafeira para convencer os moradores a desfazerem as alterações feitas. Quem não respeitar as normas de conduta poderá perder a casa.
A coordenadora do trabalho social do PAC no governo do estado, Ruth Jurberg, informa que está em fase inicial um treinamento em que os moradores vão aprender formas legais de gerar renda, dentro de um conceito de desenvolvimento sustentável: Não é permitido fazer comércio.
- A gente já conversou com os moradores, mas muitos moravam em casas que também eram lojas. O que estamos trabalhando agora é o desenvolvimento sustentável. Tem um eixo que se chama geração de emprego e renda. Vamos incentivar a formação de cooperativas, capacitar moradores e organizar espaços para gerar renda de forma organizada.
As mudanças na arquitetura dos apartamentos também podem ser consideradas irregulares, embora algumas, como a instalação de aparelhos de ar condicionado, tenham sido autorizadas pelo governo.
O uso de grades ainda está sendo discutido. Mas alguns moradores já protegeram suas janelas, alegando que se sentem inseguros.
- O governo está acompanhando o processo de adaptação dos moradores, que não podem nem vender nem alugar o imóvel por cinco anos. Eles assinaram os documentos e sabem que os apartamentos podem ser retomados. O governo tem essa prerrogativa. O que nós queremos é atender o maior número de famílias carentes, não pessoas que vão alugar o apartamento, disse Ruth.
Para a pesquisadora Hilaine Yaccoub, antropóloga doutoranda da UFF, os moradores da comunidade se acostumaram a buscar fontes alternativas de renda.
- Quando são transportados para outro contexto, com tudo regularizado, acabam criando meios de sobrevivência e geração de renda. Por isso o puxadinho e o comércio, observa. Além disso, o apartamento foi desenhado por arquitetos e engenheiros que têm o olhar de fora, que pode não refletir os valores e as necessidades de quem mora ali.
Por outro lado, o arquiteto da empresa Metrópolis Projetos Urbanos (MPU), Jorge Jauregui, que desenhou os edifícios de Manguinhos, minimizou o impacto das alterações feitas pelos moradores. Ele disse que considera boa a ideia dos toldos.
Para ele, os moradores ainda estão aprendendo a viver num condomínio. Jorge destaca a importância do trabalho social, que vai ensinar a eles as diferenças entre espaço público e privado.
- Mesmo a classe média, às vezes, usa os espaços de maneira diferente da que o arquiteto planejou. Ipanema e Leblon também têm puxadinho.
Faz parte da cultura cívica mostrar que é necessário respeitar o limite do público e do privado, afirmou o arquiteto, que ontem estava no local.
-Não vi qualquer mudança grave. Algumas varandas fechadas, toldos. Nada muito sério. Gostei do toldo do comércio em frente a uma praça. Tudo isso bem pensado, bem incorporado, pode ser uma contribuição para o projeto.
No Cantagalo, apartamentos foram alugados
Apenas um mês depois do contrato de concessão dos apartamentos construídos com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Morro do Cantagalo, em Ipanema, cinco dos 56 apartamentos já estavam sendo alugados. A denúncia, publicada pelo jornal Extra em 11 março passado, revelou que a prática desrespeitava uma cláusula do termo de concessão assinado com o governo do estado. Os imóveis não poderiam ser negociados.
Na época, o aluguel de um apartamento de dois quartos, com vista para a Praia de Ipanema, custava cerca de R$ 500. Já as unidades que não tinham piso frio estavam sendo negociadas a R$ 400.
Um dia após a reportagem do Extra, o governo do estado mandou fiscalizar as unidades no Morro do Cantagalo. A vistoria foi feita pelo Instituto de Terras do Rio de Janeiro (Iterj). O presidente do Iterj chegou a reconhecer que o governo age de boa fé e não imagina que a pessoa irá alugar o imóvel.
O Extra revelou, ainda, que a Comissão de Política Urbana e Habitação da Assembleia Legislativa (Alerj) tinha recebido denúncia de que apartamentos do PAC no Cantagalo estariam sendo até vendidos.
A comissão de sindicância da Secretaria estadual de Habitação, criada para investigar os aluguéis indevidos em prédios do PAC, identificou sete possíveis irregularidades. Os moradores responsáveis foram convocados para prestar esclarecimentos no Iterj.
Saiba mais sobre as obras do PAC
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) propõe aplicar em quatro anos no Brasil investimentos de R$ 503,9 bilhões, nas áreas de transporte, energia, saneamento, habitação e recursos hídricos, de acordo com dados do Ministério do Planejamento. Apenas em habitação, o programa prevê destinar R$ 106,3 bilhões entre 2007 e 2010.
No Rio de Janeiro, o PAC fez obras nas comunidades de Manguinhos, Rocinha e no Complexo do Alemão, onde está sendo construído um teleférico.
Abrir ruas, criar unidades habitacionais e equipamentos públicos, como escolas e postos de atendimento médico, são os principais objetivos das obras nas favelas. (Marcelo Dutra e Cláudio Motta em O Globo)
Acelerando a desordem :Apartamentos do PAC em Manguinhos viram lojas, bares e até açougue
Moradores de pelo menos uma dezena de apartamentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no complexo de Manguinhos, na Zona Nor te, estão transformando os imóveis que receberam gratuitamente do governo federal em estabelecimentos comerciais.
No Condomínio João Nogueira, é possível ver bares, quitandas, lojas de ferragens e bazares à beira da Avenida Suburbana. Há até um açougue com um frigorífico improvisado na sala de um dos apartamentos térreos. Pela regra, os imóveis não podem ser alugados, transformados em pontos comerciais ou modificados. O governo do estado, que atuou no local em parceira com a União, avisa que poderá retomar as moradias.
Os exemplos são muitos. Em outra unidade habitacional, há um bar com mesa de sinuca e uma jukebox, ao lado de prateleiras lotadas de doces e salgados. Pelo menos dois dos apartamentos do condomínio, que viraram pontos comerciais, são sublocados por R$ 300. Segundo as pessoas que exploram os negócios, os proprietários se mudaram para outras comunidades.
O condomínio tem 396 unidades habitacionais, cada uma com 42 metros quadrados. São dois quartos, sala, cozinha, banheiro e varanda. A obra foi parcialmente inaugurada em dezembro do ano passado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e custou aos cofres públicos cerca de R$ 53,2 milhões.
O objetivo era beneficiar duas mil pessoas daquela comunidade. A maior parte dos estabelecimentos está funcionando na varanda e na sala dos apartamentos térreos. Mas há quem utilize todo o espaço nas instalações comerciais.
- Não moro no apartamento. Aqui é só comércio. Eu pago um aluguel de R$ 300 a uma moça que mora em Saracuruna com a mãe doente.
O apartamento dela ficou vazio e eu não perdi tempo. Na verdade, eu moro em um outro apartamento que ganhei do governo aqui mesmo, contou uma comerciante que atende o público em um dos estabelecimentos.
Outro dono de negócio diz que suas vendas crescem nos fins de semana quando amplia o número de clientes, espalhando mesas na calçada.
- As mesas ficam cheias e a cerveja rola a noite toda, disse ele, que é dono do apartamento.
Segundo alguns moradores, traficantes estão cobrando uma taxa mensal de R$ 15 a R$ 20 para garantir a segurança dos estabelecimentos porque, há 20 dias, foi registrado um caso de roubo.
Isso começou após a invasão de uma loja em que o comerciante perdeu R$ 500. O vigia nem sai da boca de fumo. À noite, ele fica lá em cima vendo tudo que acontece. Durante o dia, nem vemos, mas agora mesmo ele está de olho contou um dos comerciantes.
Arquiteto de obra não vê gravidade
Antes da mudança para um dos apartamentos, o morador teve que participar de um curso de 15 horas, com no mínimo 75% de presença. Caso contrário, ele não receberia as chaves.
Nas palestras, eles são informados que não podem alugar o apartamento nem fazer modificações fora do padrão. De acordo com a Empresa de Obras Púbicas (Emop), órgão do governo do estado, uma equipe do PAC social será enviada na próxima terçafeira para convencer os moradores a desfazerem as alterações feitas. Quem não respeitar as normas de conduta poderá perder a casa.
A coordenadora do trabalho social do PAC no governo do estado, Ruth Jurberg, informa que está em fase inicial um treinamento em que os moradores vão aprender formas legais de gerar renda, dentro de um conceito de desenvolvimento sustentável: Não é permitido fazer comércio.
- A gente já conversou com os moradores, mas muitos moravam em casas que também eram lojas. O que estamos trabalhando agora é o desenvolvimento sustentável. Tem um eixo que se chama geração de emprego e renda. Vamos incentivar a formação de cooperativas, capacitar moradores e organizar espaços para gerar renda de forma organizada.
As mudanças na arquitetura dos apartamentos também podem ser consideradas irregulares, embora algumas, como a instalação de aparelhos de ar condicionado, tenham sido autorizadas pelo governo.
O uso de grades ainda está sendo discutido. Mas alguns moradores já protegeram suas janelas, alegando que se sentem inseguros.
- O governo está acompanhando o processo de adaptação dos moradores, que não podem nem vender nem alugar o imóvel por cinco anos. Eles assinaram os documentos e sabem que os apartamentos podem ser retomados. O governo tem essa prerrogativa. O que nós queremos é atender o maior número de famílias carentes, não pessoas que vão alugar o apartamento, disse Ruth.
Para a pesquisadora Hilaine Yaccoub, antropóloga doutoranda da UFF, os moradores da comunidade se acostumaram a buscar fontes alternativas de renda.
- Quando são transportados para outro contexto, com tudo regularizado, acabam criando meios de sobrevivência e geração de renda. Por isso o puxadinho e o comércio, observa. Além disso, o apartamento foi desenhado por arquitetos e engenheiros que têm o olhar de fora, que pode não refletir os valores e as necessidades de quem mora ali.
Por outro lado, o arquiteto da empresa Metrópolis Projetos Urbanos (MPU), Jorge Jauregui, que desenhou os edifícios de Manguinhos, minimizou o impacto das alterações feitas pelos moradores. Ele disse que considera boa a ideia dos toldos.
Para ele, os moradores ainda estão aprendendo a viver num condomínio. Jorge destaca a importância do trabalho social, que vai ensinar a eles as diferenças entre espaço público e privado.
- Mesmo a classe média, às vezes, usa os espaços de maneira diferente da que o arquiteto planejou. Ipanema e Leblon também têm puxadinho.
Faz parte da cultura cívica mostrar que é necessário respeitar o limite do público e do privado, afirmou o arquiteto, que ontem estava no local.
-Não vi qualquer mudança grave. Algumas varandas fechadas, toldos. Nada muito sério. Gostei do toldo do comércio em frente a uma praça. Tudo isso bem pensado, bem incorporado, pode ser uma contribuição para o projeto.
No Cantagalo, apartamentos foram alugados
Apenas um mês depois do contrato de concessão dos apartamentos construídos com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Morro do Cantagalo, em Ipanema, cinco dos 56 apartamentos já estavam sendo alugados. A denúncia, publicada pelo jornal Extra em 11 março passado, revelou que a prática desrespeitava uma cláusula do termo de concessão assinado com o governo do estado. Os imóveis não poderiam ser negociados.
Na época, o aluguel de um apartamento de dois quartos, com vista para a Praia de Ipanema, custava cerca de R$ 500. Já as unidades que não tinham piso frio estavam sendo negociadas a R$ 400.
Um dia após a reportagem do Extra, o governo do estado mandou fiscalizar as unidades no Morro do Cantagalo. A vistoria foi feita pelo Instituto de Terras do Rio de Janeiro (Iterj). O presidente do Iterj chegou a reconhecer que o governo age de boa fé e não imagina que a pessoa irá alugar o imóvel.
O Extra revelou, ainda, que a Comissão de Política Urbana e Habitação da Assembleia Legislativa (Alerj) tinha recebido denúncia de que apartamentos do PAC no Cantagalo estariam sendo até vendidos.
A comissão de sindicância da Secretaria estadual de Habitação, criada para investigar os aluguéis indevidos em prédios do PAC, identificou sete possíveis irregularidades. Os moradores responsáveis foram convocados para prestar esclarecimentos no Iterj.
Saiba mais sobre as obras do PAC
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) propõe aplicar em quatro anos no Brasil investimentos de R$ 503,9 bilhões, nas áreas de transporte, energia, saneamento, habitação e recursos hídricos, de acordo com dados do Ministério do Planejamento. Apenas em habitação, o programa prevê destinar R$ 106,3 bilhões entre 2007 e 2010.
No Rio de Janeiro, o PAC fez obras nas comunidades de Manguinhos, Rocinha e no Complexo do Alemão, onde está sendo construído um teleférico.
Abrir ruas, criar unidades habitacionais e equipamentos públicos, como escolas e postos de atendimento médico, são os principais objetivos das obras nas favelas. (Marcelo Dutra e Cláudio Motta em O Globo)
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