Na Saara, lojistas chegaram a triplicar o faturamento e, em supermercados, aumento nas vendas surpreendeu
por Marcello Corrêa / Nice de Paula
RIO - Em uma Copa marcada pelo dilema entre torcer pela seleção ou
protestar contra os gastos públicos para a realização do evento, o
carioca resolveu se empolgar — e consumir — na última hora, pouco antes
de a bola rolar para Brasil e Croácia. Essa foi a percepção de lojistas e
associações comerciais ouvidos pelo GLOBO, que começaram o ano
pessimistas, mas já calculam um aumento de até 15% no volume médio de
vendas em relação aos dias normais, só na semana da estreia.
Segundo a maioria dos comerciantes, a maré de consumo começou ainda
na semana passada, com a aproximação da abertura do Mundial. Foi o caso
do Atacadão da Biju, na Saara, principal centro de comércio popular do
Rio, que vem apostando nos produtos relacionados à Copa, mas só viu o
resultado mais significativo do investimento a partir do dia 30 de maio.
Na última semana, segundo a gerente Luana Sanches Cardoso, o
faturamento mais do que triplicou em relação a dias normais: de R$ 7 mil
para R$ 25 mil por dia.
— Investimos muito. Nosso patrão já está viajando para comprar mais produtos — conta Luana.
Parte
do sucesso da loja se deve à propaganda que, em ano de Copa no Brasil e
muitos turistas nas ruas, apostou em uma estratégia diferenciada: um
locutor bilíngue. Em uma das esquinas mais movimentadas do centro
comercial, Nei Lopes capricha no inglês: “Don’t waste your shoes! Don’t
waste your shoes!”, um chamado para que o consumidor “não gaste mais
seus sapatos” e resolva comprar ali mesmo. Nei arrisca também o
espanhol, e afirma que já “arranhava” as duas línguas há um tempo e
resolveu aproveitar para atrair os estrangeiros (e até brasileiros).
— É a necessidade. Mesmo que não seja perfeito, está valendo — afirma ele.
O
clima de festa incentivado por animadores como Nei, aliás, deve ser o
principal aliado para que o comércio continue a vender. Segundo Enio
Bittencourt, presidente da Saara e no ramo desde a Copa de 1974, a
expectativa para os dias deste Mundial já estava baixa, mas, na última
semana, viu um crescimento de 15% no volume de vendas, ainda aquém das
projeções iniciais.
— Houve uma reação. Mais ou menos 15% (de
aumento), tanto de público como de vendas. Esse ano, foi tudo muito em
cima da hora. De todas as Copas, essa tem sido a mais fraca — diz Enio,
que estima que, nos outros torneios, o comércio viu um aumento, já no
início, de 25% a 30% no volume de vendas.
Ainda assim, a Saara
espera um aumento de mais 10% no volume de vendas até o fim da
competição, resultado que depende da atuação da seleção ao longo do
evento.
— A gente já havia traçado esse cenário sobre o comércio
por causa de dois fatores: um número muito expressivo de turistas na
cidade e outro que não sabíamos quando ia acontecer era o brasileiro
entrar no clima da Copa. Mas bastou a bola rolar para isso acontecer,
todo mundo na rua animado e querendo virar a página dessa polêmica em
torno da Copa. Não adianta, o brasileiro ama futebol, as manifestações
estão esvaziadas e, a seleção indo bem, esse movimento só vai aumentar.
Apesar de todos os feriados, o comércio do Rio vai fechar este mês com
resultado positivo — diz Christian Travassos, gerente de economia da
Fecomércio-RJ.
Na capital paulista, sede do primeiro jogo da Copa,
não foi difrerente, disse Marcel Solimeo, economista-chefe da
Associação Comercial de São Paulo. Segundo ele as vendas que estavam
fracas deram uma animada a partir do começo de junho.
— Nos
últimos dias, aumentou bastante, mas quem acompanhou as Copas anteriores
novata um movimento maior com muito mais antecedência. Se o Brasil
continuar indo bem, as vendas vão aumentar mais. Os produtos da Copa
porém, pesam pouco, porque são de baixo valor e dificilmente vão
compensar as perdas grandes com as paralisações de vendas nos dias de
jogos do Brasil.
RESULTADOS PODEM INFLUENCIAR GASTOS
Solimeo
explica que os produtos realmente necessários, as pessoas acabam
comprando em outros dias, mas as chamadas vendas por impulso (roupas,
calçados, livros) acabam perdidas de vez. Quanto ao fluxo de turistas,
ele pondera que em São Paulo o forte é o turismo de negócio que está
praticamente parado e será, no máximo, compensado pelo turismo da Copa.
Hilaine
Yaccoub, antropóloga e professora de Comportamento do Consumo da ESPM
também não se surpreendeu com essa mudança no ânimo das pessoas.
—
A gente vem de uma época de muito desânimo, muita cobrança por todas
aquelas questões dos protestos. Mas quando chega perto do evento em si
nosso patriotismo fala mais alto e as pessoas saem correndo para comprar
na última hora. A gente sabe que tem muita coisa errada, mas quando a
seleção entra em campo é o país que está ali, é a pátria de chuteiras
mesmo. Não tem ninguém que desconstrua isso, está no nosso DNA — diz.
A
professora diz também que o brasileiro gosta de resultado e, se a
seleção for bem, as pessoas vão gastar mais. Se depender da dona de casa
Denize Luiz Sequeira, Neymar e companhia precisam mostrar mais serviço
para fazer com que ela continue a gastar. De brinco verde e amarelo e em
busca de uma camisa da seleção para o neto em uma das lojas do centro
popular, ela conta que já gastou cerca de R$ 100 em decoração, mas só
começou a comprar há dois dias.
— Nas outras, estava mais animada —
conta dona Denize, aproveitando para cornetar o técnico Felipão: — O
Fred pode até ser muito bom, mas só no Fluminense.
SUPERMERCADOS VEEM ALTA DE 9% NAS VENDAS
Além
da corrida para comprar bandeirinhas, cornetas e perucas nas cores da
bandeira nacional, o torcedor brasileiro também foi aos supermercados
para comprar, no último minuto, petiscos e bebidas para assistir ao jogo
pela TV. O movimento pegou os supermercados de surpresa, segundo a
Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj).
—
Segundo dados preliminares, houve crescimento entre 8% e 9% em relação
ao volume de vendas em dias normais. Surpreendeu. Esperávamos alta de 4%
a 5% — conta Ailton Fornari, presidente da Asserj.
Para Fornari,
no entanto, o desempenho do segmento está melhor do que o registrado em
outras Copas, principalmente por causa da quantidade de turistas na
cidade, já que a Copa é no Brasil.
O taxista Julio Gomes da Silva
foi um dos responsáveis por engordar o faturamento dos supermercados.
Pouco antes da estreia do Brasil nesta quinta-feira, ele resolveu fazer
as compras em um pequeno mercado na Vila da Penha, mas desistiu: segundo
ele, as filas estavam insuportáveis. A solução foi pedir à esposa, que
trabalha em um Prezunic, levar pão, refrigerante, suco e outros itens
para a festa. No total, ele calcula ter gasto R$ 120 só com o jogo de
estreia.
A vitória, no entanto, pode fazer com que ele resolva abrir a carteira:
— O pessoal está se animando em cima da hora. Talvez no próximo jogo eu faça um churrasco.
Bares
e restaurantes também já estão lucrando com a animação, mas, enquanto
os próximos jogos da seleção não chegam, alguns preferem continuar
contidos. É o caso de Sérgio Araújo, um dos donos do bar Praia de
Nazaré, bem próximo ao Alzirão, tradicional ponto de encontro da torcida
carioca. Preocupado com o clima político e a possibilidade de
manifestações semelhantes às que marcaram a Copa das Confederações, no
ano passado, ele diz que é cedo para dizer que houve crescimento.
— O investimento foi de R$ 3,5 mil e o lucro, correspondente às expectativas — afirma.