segunda-feira, 5 de março de 2012

Cenas Chocantes no Fashion Mall

Conversava com o roteirista e diretor
Rafael Dragaud, de “Conexões urbanas”,
sobre sua mudança de residência,
de um pequeno apartamento no
Leblon, entre a Cruzada São Sebastião e o Jardim
de Alah, para uma casa em São Conrado,
nos altos das Canoas, na fronteira também
com uma pequena comunidade. Rafael me
contava, horrorizado, as cenas que tem presenciado
no Fashion Mall — shopping que
passou a frequentar mais desde que se mudou
— e que o fazem refletir sobre o quanto
somos, ainda, escravocratas.
A primeira cena foi de uma moça com biótipo
nordestino que passeava com três crianças
de pele bem clara, como seus cabelos e
seus olhos. Um segurança negro e alto a abordou,
com educação. Numa localização estratégica,
Rafael, que tem o hábito de observar,
na moita, esses enclaves comportamentais,
viu tudo, como um antropólogo.
Percebeu, inclusive, o constrangimento do
segurança, de origem humilde, e seu esforço
para encontrar um modo de falar que não ofendesse
a moça, ao lhe perguntar qual o grau de
relação que tinha com aquelas crianças.
Ao confirmar suas suspeitas – a mulher era
babá da prole de algum casal que, naquele
momento, fazia compras ou trabalhava – o segurança
pediu que se encaminhasse para algum
misterioso destino, esperou que ela desaparecesse
e passou um rádio para assegurar
o procedimento. O fato: ela não podia ficar
ali sem o uniforme de serviçal.
O Fashion Mall, não é novidade, tornou-se,
em certos dias e horários, o shopping das babás
uniformizadas conduzindo crianças de
classe AAA, acompanhadas ou não dos pais, e
carregando também as compras. Há momentos
em que poderíamos jurar que estamos no
set de “Histórias cruzadas”, o filme da Disney
que mostra como eram tratadas as domésticas
e babás (normalmente, elas faziam todas
as funções) no Sul racista, na transição para a
conquista dos direitos civis dos negros.
A diferença é que aqui, como nos ensinara
Caetano em “Haiti”, o preto é sinônimo de pobre:
pode ser branco, nordestino, caboclo, índio,
é tudo preto, tudo preso, e o nosso apartheid
hoje é mais social do que racial, embora
sua herança seja escravocrata. O Rio de Janeiro,
que na Abolição votou 100% contra, é até hoje
craque em preconceito social e segregação,
como se pode exemplificar na outra cena que
Rafael presenciou, ao entrar, com sua mulher,
numa sessão de “O espião que sabia demais”.
Numa das fileiras de trás, estava um desses
yuppies de cabelinho penteado pro lado, que Rafael
reconhecera, na entrada, de uma outra ocasião,
quando o mesmo mandara demitir alguém
pelo celular, aos gritos, enquanto comprava vinhos
numa dessas adegas, e depois pegara a
chave com o guardador sem olhá-lo na face.
Pois, o yuppie, com sua turma, tacava a maior
zona, falando alto, consultando celular, aquela
falta de educação característica de quem tem
berço mas não tem caráter. Uma mulher, próxima
a eles, em companhia do marido, reclamou.
— Por favor, silêncio! A gente pagou pra assistir
ao filme!
O Sr. Riquinho soltou um ganido de gazela:
— Ihhhhh... olha só.... olha a audácia... Pelo
jeito, não tem dinheiro pra vir ao cinema, não
vem nunca, daí dar tanta importância pra essa
merda.
— Que absurdo! Eu ralo o mês inteiro pra
ganhar meu dinheiro honesto e ainda tenho
que ouvir isso!
O yuppie se dirigiu à mulher como a um
cão.
— Psssssst.... ca-la-da! Ca-la-da!
Foi quando o marido da cidadã resolveu se
pronunciar. Levantou-se e se posicionou na
direção do ofensor.
— Escuta, você está mesmo mandando a
minha mulher calar a boca? Você está mesmo
com disposição de resolver isso comigo fora
da sala?
Como qualquer covarde pusilânime, o rico
mimado sem classe pôs o rabo entre as pernas
e desistiu de confrontar o casal trabalhador
(o clichê é consciente e proposital).
O que está por trás da orientação, decerto
ilegal, que proíbe babás não uniformizadas de
caminhar por um shopping com os filhos de
seus patrões?
O que está na cabeça de quem administra o
Fashion Mall, que andou perseguindo o filho de
criação de Caetano, expulso do local por seguranças,
acusado de “atitude suspeita”, talvez
pela cor da pele e o trato rasta do cabelo?
Não estaria na hora de se cobrar, na Justiça,
de acordo com o código penal, a impropriedade
desses procedimentos? Ou seriam apenas
“atitudes isoladas”?
Os shoppings, para muitos, se tornaram
bairros, cidadelas, “comunidades”, e já há
grandes estabelecimentos do gênero em todas
as regiões da cidade e do estado.
Há, inclusive, shoppings na Zona Sul onde se
nota que a pluralidade é não apenas tolerada,
mas desejada, como o Shopping Leblon, que,
mesmo tirando onda de chique, tem suas galerias
e lojas percorridas por madames e moradores
da Cruzada, babás de jeans e empresários,
Hells Angels e motoboys, sem que pareçam,
uns, se incomodarem com os outros.
Ao contrário, a impressão que se tem é de se
estar, do ponto de vista do cosmopolitismo, numa
Avenida Copacabana, com todo o respeito e
no melhor sentido do endereço. No Rio Sul e no
Botafogo Praia Shopping também se respiram
esses ares de boa mistura igualitária, mesmo
que as carteiras, as contas bancárias e o poder
de compra tenham diferenças consideráveis.
Vitrines são para todos e, para os menos abastados,
sempre sobra algum fruto do suor para
se fazer um agrado, a si ou ao próximo.
O que há com o Fashion Mall para investir nessa
abominável vertente de clube segregacionista?
Um bom tema para reflexão (e para providências)
na semana em que a cidade faz aniversário

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Jô Soares entrevista a professora Lívia Barbosa

Pra quem perdeu... a antropóloga Lívia Barbosa, referência e pioneira da Antropologia do Consumo no Brasil foi ao Jô Soares dar um entrevista sobre sua última pesquisa; a Alimentação do Brasileiro.

Para Conferir é só clicar no link abaixo

Livia Barbosa no Jô Soares

domingo, 15 de janeiro de 2012

Cultura Material - artigo sobre "a chamada nova classe média"

Acaba de ser lançado o periódico da UFRGS sobre cultura material, nele encontra-se o artigo escrito por mim, acessem: http://www6.ufrgs.br/ppgas/ha/

A CHAMADA “NOVA CLASSE MÉDIA”. CULTURA MATERIAL,

INCLUSÃO E DISTINÇÃO SOCIAL

Resumo: O presente artigo tem como objetivo apresentar uma discussão sobre a importância do consumo e cultura material para um determinado estrato social. A partir de uma pesquisa realizada sobre ligações clandestinas de energia elétrica, fenômeno sociotécnico de dimensões culturais conhecido por “gatos”, residi por oito meses em um bairro popular na região metropolitana do Rio de Janeiro. Como moradora, pude penetrar na vida do bairro e analisar o estilo de vida de um grupo de moradores considerado a elite local, que, àquela época, fazia parte de um contingente mais amplo da população brasileira que estava adquirindo visibilidade pública, sendo denominado pela mídia como “nova classe média”. Devido ao aumento da renda, à política de juros baixos e aos financiamentos facilitados a partir do Plano Real, esses “novos consumidores” obtiveram mais acesso a bens duráveis, especialmente eletroeletrônicos, elevando assim seu status perante seus iguais e muitas vezes adequando através de táticas seu novo padrão de consumo. Por meio do consumo, principalmente de carros e eletroeletrônicos, eles almejam inclusão em outro estrato social, as camadas médias urbanas.

Palavras-chave: conforto, consumo doméstico, nova classe média, status.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Estímulo certo, produzindo energia...

Diferente do post passado, esta propaganda francesa me deixou entusiasmada pela forma como foi concebida, leve, divertida...

Ontem recebi um email com uma publicidade interessante e acredito que seja pertinente assistir.

E fica aí a mensagem de como podemos nos divertir e ao mesmo tempo sermos estimulados de forma positiva para ações que devem pertencer ao nosso cotidiano... fazer exercícios... beber água!

E ainda por cima produzir energia gastando energia... fantástico!


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cuidado, as mulheres pensam e consomem!

Semanas atrás encontrei uma amiga para um lanche e começamos a falar sobre assuntos referentes ao universo feminino: vaidade, conquista, inovação foram temas aboradados até que ela, uma mulher extremamente antenada com o universo midiático me chama atenção para uma determinada propaganda. Ela sabendo do meu campo de atuação, procurou minha ajuda para entender os seus sentimentos e sensações ao assistir a tal propaganda.

Nela, Gisele Bündchen faz uma pergunta ao marido e ela recebe uma negativa, logo em seguida ela faz a mesma pergunta, desta vez, usando apenas calcinha e sutiã e recebe uma afirmativa.

Minha amiga, uma administradora de empresas, jovem mãe, divorciada, e que nunca levantou bandeira para qualquer causa feminista me revelou que ficou incomodada, inconformada e completamente irritada com a peça publicitária. Afirmou que se sentiu ultrajada e que nunca na vida precisou de tal recurso para qualquer coisa... "O que esses publicitários estão pensando? Qual é a mulher nos dias de hoje que querem ser vistas como objetos sexuais?"


Hoje saiu a matéria no G1 intitulada "Governo quer suspender comercial de lingerie com Gisele Bündchen: Secretaria diz que recebeu seis reclamações contra a campanha da Hope.Vídeos mostram a modelo usando a sensualidade para resolver problemas"
 
Por outro lado, no campo das peças publicitárias de cervejas a Brahma inovou trazendo mulheres para o campo do consumo, no vídeo que está no ar, amigas estão juntas em um apartamento e veem seus namorados pela tv na arquibancada do estádio, eles brincam com o anagrama Braham / Amor... e elas partem pra cima das cervejas deles geladas na geladeira.
 
Na contramão de tudo que vem sendo vinculado no campo das publicidades de cervejas, esta peça coloca a mulher como consumidora, moderna, capaz de ficar com as amigas enquanto seu namorado está se divertindo num jogo de futebol, a rixa mulher versus futebol, ou a irritação das mulheres por causa da bebedeira deles fica pra trás e a mulher assume outra posição, mais indepentente e segura.
 
Para ver a matéria do G1 sobre a marca de lingeria HOPE, acesse http://g1.globo.com/economia/noticia/2011/09/spm-pede-suspensao-de-propaganda-de-lingerie-com-gisele-bundchen.html
 
Para ver a propaganda da HOPE clique ai embaixo
 
 
 
Para ver a nova propaganda da BRAHMA, acesse:
 
 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vende-se uma falsa etnografia

Semana passada participei de um evento no Rio de Janeiro organizado pela ABA (Associação Brasileira de Anunciantes) sobre Pesquisa e Inteligência de Mercado. Era o primeiro evento que participava desta instituição e confesso que estava um pouco ansiosa.

Tenho eventualmente feito algumas consultorias para empresas e tenho alguma experiência em pesquisas de mercado, mas nunca antes tinha feito qualquer contato com eventos desta ordem por pura falta de oportunidade.

Muitas palestras interessantes algumas meio arrastadas como qualquer outro congresso, mas uma em especial me chamou atenção pela pretensão e inventismo revelado.

Era um instituto de São Paulo que utiliza a tecnologia para fazer suas pesquisas, questionários, traillers com Internet são dispostos em locais movimentados para que os participantes tenham acesso a rede e possam responder seus questionários on line, até ai... ok.

Até que a palestrante nos mostra uma técnica chamada de "etnografia digital pontual" (acho que era esse o nome), seria uma inovação segundo a empresa, onde ao invés do pesquisador antropólogo participar do cotidiano e fazer seus relatos, poderações e análises, os próprios nativos (no caso, os consumidores) através de câmeras e celulares gravam o momento ou a situação que deverá ser estudada.

Ou seja, a palestrante justifica que primeiro, os nativos estariam muito mais a vontade do que se tivesse uma pessoa estranha acompanhando, segundo, ele teria a liberdade de mostrar o que quer, terceiro haveria mobilidade e rapidez pois os videos podem ser feitos em qualquer área do Brasil e poderia ser enviado pela Internet, e para finalizar o custo seria muito mais baixo, revela.

Ela mostra alguns trechos de vídeos gravados de uma pesquisa sobre alimentação no café da manhã. As mesas postas revelam cafés da manhã em algumas casas super equilibrados, e mais, os moradores com tempo de simplesmente sentar a mesa pra comer, o que começo a duvidar diante da vida corrida no cotidiano da maior parte das famílias brasileiras.

Uma pergunta surge na plateia, quanto custaria uma gravação destas? "Em média 2 mil reais por gravação", responde.

Entrei em choque.

Como assim, uma gravação sairia mais barato do que contratar um antropólogo? Eu duvido que empresas de mercado pagariam mais de 2 mil reais de diária a um profissional qualificado para fazer uma etnografia de um único dia.

Logo depois a palestrante justifica dizendo que depois os vídeos são mostrados a especialistas das áreas de antropologia, psicologia, sociologia entre outros para analisar as situações, e várias ligações são feitas antes e depois da gravação para que os participantes (consumidores) se sintam à vontade com a pesquisa e filmagem.

São vários pontos a se discutir que prefiro elaborar um post separado, mas uma coisa é certa: isto não é uma etnografia, é uma representação de um momento escolhido pelo pesquisado, completamente enviezado, e falso.

Primeiramente qualquer um de nós cuidaria intensamente da imagem que será apreendida, senão, por que mexemos no cabelo ou encolhemos a barriga na hora de sermos fotografados ou filmados? Outra coisa, por mais que o pesquisado queira investir em naturalidade ele não tem preparo, noção ou técnica para observar elementos que são contemplados em uma boa etnografica. Para dar um exemplo podemos citar os cheiros, a linguagem, a estrutura da casa (que não está presente no vídeo).

Um vídeo é o enquadramento de um cenário, onde atores vivem papeis em dadas encenações... ou seja, tudo é falso, tudo é fake, tudo é elaborado. Com a tecnologia digital essa encenação é ainda maior, uma vez que o botão de DELETAR nos permite apagar, refazer, tentar simplesmente captar o nosso melhor, aquilo que queremos que os outros vejam e aprovem.

O que deveria ser deletado era essa metodologia, que vende resultados impossíveis de serem alcançados.

Pra mim, ainda é algo muito mais sério é um exemplo de pura falsidade ideológica.

Revela também o desespero de empresas que investem em inovações para obter dados, fica claro que nem sempre uma inovação é algo positivo, deve-se antes de mais nada consultar pessoas experientes antes de entrar em roubadas deste tipo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Palestra na Concessionária de Água de Campo Grande - MS ÁGUAS GUARIROBA






Pesquisa antropológica traça perfil de usuários com “gato” na rede  

Um estudo sobre os motivos que levam usuários de serviços públicos a manterem ligações clandestinas nos domicílios foi apresentado nesta manhã, 24/08, para os colaboradores da Águas Guariroba. A antropóloga Hilaine Yaccoub ministrou a palestra “Atirando o pau no gato” e apontou as conclusões de uma pesquisa antropológica, realizada no município fluminense de São Gonçalo, que buscou mapear o perfil do usuário com ligações irregulares de energia elétrica.

Para a realização da pesquisa, a antropóloga passou a viver no Bairro do Coelho – região considerada pobre em São Gonçalo (RJ) – para avaliar as ações de consumo dos moradores com “gato”, e traçar o nível de satisfação da comunidade com o serviço oferecido pela concessionária de energia elétrica. O levantamento foi realizado a convite da empresa responsável pelo serviço no município.De acordo com a pesquisadora a inserção na comunidade possibilitou a imparcialidade da população em responder questões relacionadas ao serviço.

Hilaine passou a utilizar o comércio local e a interagir com a comunidade para angariar conteúdo ao levantamento que aconteceu entre os anos de 2007 e 2008 na região que compreende cerca de 7,4 mil habitantes, conforme dados atualizados em 2005 pela prefeitura. A antropóloga conta que a companhia de energia elétrica apresentava índices de até 67% de perdas na localidade em razão dos gatos na rede. Segundo a estudiosa, diversos pontos levam ao problema dos gatos: desde questões culturais, de quem nunca pagou pelo serviço ou não prioriza o pagamento, até a falta de conhecimento que a empresa concessionária tem do perfil de seu cliente.

“A empresa também tem que ter vontade de se adaptar, de conhecer o seu cliente. Ela tem que entender suas aspirações, seus desejos, seus dramas, o que o atrapalha. Isso tem que ser absorvido pela empresa; tudo tem que ser valorizado para não competir com o mercado clandestino”, observa. Para ela não é vantajoso para as empresas investirem em tecnologia que dificulte os “gatos” sem “mudar o valor social”. E este valor social apontado pela antropóloga deve atender também os funcionários da empresa, garantindo a valorização do trabalho.

Hilaine complementa explicando que também é importante que os usuários conheçam o diferencial do produto oferecido para que todos saibam do valor agregado à qualidade do serviço. “No caso da água que chega à nossa torneira, ela é fruto de um mercado produtivo. Existem etapas e estas etapas exigem profissionais qualificados, exige estrutura da empresa, espaço físico, produtos químicos. E este tratamento é uma tecnologia”, afirma.

Fonte: divulgação interna