
RIO, 10 (AG) - A antropóloga Hilaine Yaccoub se mudou de mala e cuia,
em 2012, de Niterói para a Barreira do Vasco, em São Cristóvão, com a
intenção de estudar a lógica por trás dos "gatos". O tema era sua tese
de doutorado em antropologia na UFF. Mas, na convivência com os
moradores, acabou descobrindo o maravilhoso mundo das chamadas redes de
compartilhamento. Traduzindo para o dia a dia, é aquela velha história
de cidade de interior. Se o seu vizinho já tem uma batedeira, para que
comprar uma? Para que pagar por uma roupa de casamento se consigo uma
emprestada? Hilaine observou que na favela é assim: praticamente tudo é
dividido, desde água, pontos de TV a cabo, sinal de internet, panela de
pipoca e vestidos de festa à educação das crianças. Sem falar na comida.
Nestes dois anos morando ou mantendo um escritório na Barreira do Vasco
- hoje, ela tem uma quitinete na favela, que usa para estudar -,
Hilaine, de 36 anos, engordou cinco quilos. Culpa das panelas dos novos
amigos, dos churrascos no beco (oficialmente Beco Eunice Rodrigues, onde
fica o seu quartinho) e dos copinhos de Guaravita, um vício que
adquiriu na Barreira do Vasco.
Essa vida comunitária, documentada em oito caderninhos de campo, provocou uma reviravolta na pesquisa de Hilaine, que mudou seu objeto de estudo em janeiro deste ano. Agora, ela se prepara para defender no primeiro semestre do ano que vem a tese "Lições da Favela - as Economias de Compartilhamento de Bens e Serviços na Barreira do Vasco". Hilaine, que é originalmente de São Gonçalo, se divide hoje entre a Barreira, seu apartamento em Icaraí, do qual nunca se desfez, e as aulas que dá na ESPM.
- Todos os estudos e pesquisas falam da precariedade das favelas. Mas eu vejo o lado cheio do copo. No meu trabalho, falo de algo importante. Para ser da favela precisa compartilhar.
Estudante mora há dois anos na comunidade
Extrovertida, Hilaine Yaccoub cativou a vizinhança. A antropóloga, que gosta de usar o verbo “favelizar” para pessoas seduzidas pela vida na favela (ela aprendeu que na Barreira moradores rejeitam o termo comunidade), é um caso óbvio de quem “se favelizou”. Ela começou a frequentar a área em 2011, por meio de um ex-namorado, cuja mãe era do lugar. No ano seguinte, conseguiu uma casinha e se mudou. Agora, está no seu terceiro endereço na Barreira (com uma pausa de alguns meses no ano passado, quando ficou sem um pouso na área), desde que transformou a favela em seu campo de pesquisa. A quitinete no beco é um exemplo da hospitalidade tratada no seu estudo: diante da dificuldade que é alugar um imóvel no local, onde os acordos são informais e firmados na base da confiança, ela só conseguiu o quartinho graças a uma indicação de Vânia Rodrigues, a Vaninha, presidente da associação de moradores, de quem virou superamiga.
Com o “contrato” de boca firmado, sem que soubesse, o espaço foi pintado de rosa pink pelo dono, Cícero Ferreira de Andrade, que mora na casa de cima:
— As paredes eram lilases. Achei que rosa era a cara dela.
Hilaine se sentiu definitivamente parte dessa família em janeiro, no seu aniversário, comemorado na Barreira. Na hora de organizar a festa, Vaninha disse que só convidaria para o regabofe “os nossos”. Foi o insight que ela precisava para revolucionar sua tese.
Hoje, ela costuma passar três dias da semana na Barreira, sempre observando, anotando e tirando fotos, sendo que algumas são postadas no Instagram e Facebook. Ela fala pelos cotovelos, mas não faz entrevistas com os moradores. O seu negócio é viver a história e traduzir “o que está vendo e sentindo”.
Um dos seus pontos de observação é a associação de moradores. E a presidente da entidade ainda tenta entender o trabalho de uma antropóloga.
— É a primeira vez que conheço uma an-tro-pó-lo-ga — ri Vaninha, dando pausas entre as sílabas. — Até agora não entendi direito o que é isso. Quando perguntam quem é ela, eu falo que é a maluquinha da Hilaine.
Essa vida comunitária, documentada em oito caderninhos de campo, provocou uma reviravolta na pesquisa de Hilaine, que mudou seu objeto de estudo em janeiro deste ano. Agora, ela se prepara para defender no primeiro semestre do ano que vem a tese "Lições da Favela - as Economias de Compartilhamento de Bens e Serviços na Barreira do Vasco". Hilaine, que é originalmente de São Gonçalo, se divide hoje entre a Barreira, seu apartamento em Icaraí, do qual nunca se desfez, e as aulas que dá na ESPM.
- Todos os estudos e pesquisas falam da precariedade das favelas. Mas eu vejo o lado cheio do copo. No meu trabalho, falo de algo importante. Para ser da favela precisa compartilhar.
Estudante mora há dois anos na comunidade
Extrovertida, Hilaine Yaccoub cativou a vizinhança. A antropóloga, que gosta de usar o verbo “favelizar” para pessoas seduzidas pela vida na favela (ela aprendeu que na Barreira moradores rejeitam o termo comunidade), é um caso óbvio de quem “se favelizou”. Ela começou a frequentar a área em 2011, por meio de um ex-namorado, cuja mãe era do lugar. No ano seguinte, conseguiu uma casinha e se mudou. Agora, está no seu terceiro endereço na Barreira (com uma pausa de alguns meses no ano passado, quando ficou sem um pouso na área), desde que transformou a favela em seu campo de pesquisa. A quitinete no beco é um exemplo da hospitalidade tratada no seu estudo: diante da dificuldade que é alugar um imóvel no local, onde os acordos são informais e firmados na base da confiança, ela só conseguiu o quartinho graças a uma indicação de Vânia Rodrigues, a Vaninha, presidente da associação de moradores, de quem virou superamiga.
Com o “contrato” de boca firmado, sem que soubesse, o espaço foi pintado de rosa pink pelo dono, Cícero Ferreira de Andrade, que mora na casa de cima:
— As paredes eram lilases. Achei que rosa era a cara dela.
Hilaine se sentiu definitivamente parte dessa família em janeiro, no seu aniversário, comemorado na Barreira. Na hora de organizar a festa, Vaninha disse que só convidaria para o regabofe “os nossos”. Foi o insight que ela precisava para revolucionar sua tese.
Hoje, ela costuma passar três dias da semana na Barreira, sempre observando, anotando e tirando fotos, sendo que algumas são postadas no Instagram e Facebook. Ela fala pelos cotovelos, mas não faz entrevistas com os moradores. O seu negócio é viver a história e traduzir “o que está vendo e sentindo”.
Um dos seus pontos de observação é a associação de moradores. E a presidente da entidade ainda tenta entender o trabalho de uma antropóloga.
— É a primeira vez que conheço uma an-tro-pó-lo-ga — ri Vaninha, dando pausas entre as sílabas. — Até agora não entendi direito o que é isso. Quando perguntam quem é ela, eu falo que é a maluquinha da Hilaine.