quinta-feira, 22 de julho de 2010

Passeio Socrático

publicado em 20/9/2008


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.
Aquilo me fez refletir: - "Qual dos dois modelos produz felicidade?"
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: - "Não foi à aula?"
Ela respondeu: - "Não, tenho aula à tarde".
Comemorei: - "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde".
- "Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..."
- "Que tanta coisa?", perguntei.
- "Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: - "Que pena, a Daniela não disse: "Tenho aula de meditação!"
Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! - Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto?". "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade.
Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais.
Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais… A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos.
A palavra hoje é "entretenimento"; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!"
O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose. Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir!
O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor..
Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história.
Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno....
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's…
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.
Frei Betto: Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de "Típicos Tipos" (A Girafa), prêmio Jabuti 2005, entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

O eterno desafio de entender os outros

Entender o “outro” é um desafio constante em nossa sociedade, principalmente para aqueles que atuam em carreiras que lidam diretamente com público, seja na área de serviços, vendas, relações públicas. Esta busca pela compreensão e entendimento do universo alheio (cultural, moral, ético, religioso, entre outros) é um dos objetivos e desafios do antropólogo que se utiliza de métodos de pesdoquisa como a etnografia e a observação participante, que hoje estão sendo utilizados fora do campo acadêmico.
Observa-se hoje que muitas empresas como institutos de pesquisa de mercado, agências de publicidade e marketing estão importando da antropologia estas ferramentas de pesquisa para desenvolver estratégias de segmentação de mercado, traçar perfis de comportamento de consumo, elaborar novos produtos e avaliar serviços e relacionamento com seus clientes.
A etnografia é uma escrita detalhada, um método de pesquisa onde o pesquisador descreve em seu diário de campo tudo o que vê durante a observação, ou seja, ele se insere no contexto do grupo ou sociedade que deseja pesquisar e depois descreve com detalhes tudo que viu e percebeu.A coleta de dados do “campo” acontece de forma natural, sem qualquer cunho artificial como o preenchimento de um questionário no qual o respondente pensa antes de escolher as opções de resposta, o que não garante veracidade.Esta nova roupagem ganhou diferentes nomes como marketing etnográfico, etnomarketing e inspiração etnográfica.
O objetivo é fazer uma adaptação do método acadêmico para a realidade do mercado, utilizando para isso prazos mais curtos, trabalho de campo mais pontuais e mais focados no que se quer descobrir e a escolha de profissionais mais híbridos, portanto, valorizados.
O chamado “olhar antropológico” passa a ser apreciado e há uma verdadeira busca por profissionais qualificados que tenham essa sensibilidade para integrar equipes de pesquisas e marketing.Além disso, muitas empresas estão abrindo espaço para os profissionais das ciências sociais contribuírem com suas percepções e técnicas investigativas para que eles possam traduzir para o mundo corporativo as informações sócio-culturais que tanto necessitam.
Este instrumento permite que o profissional entre em contato com as especificidades de cada grupo ou sociedade. Uma dica importante para um bom diagnóstico é prestar atenção em três fatores fundamentais que podem auxiliar nesta tarefa: a realização de uma boa etnografia, a contextualização e a comparação com outras culturas.

Hilaine Yaccoub

PESQUISADORA EM ANTROPOLOGIA DO CONSUMO E MERCADO
Domingo, 27 de Junho de 2010

Fonte:
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/2010/06/27/economia/o_eterno_desafio_de_entender_os_outros.asp

terça-feira, 20 de julho de 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

Encontro Nacional de Estudos de Consumo

Chamada para resumos, animem-se!



segunda-feira, 19 de abril de 2010

O dia D: A defesa

Finalmente após árduo trabalho, cheguei ao fim do mestrado, defendo a dissertação semana que vem, e estou feliz com o encaminhamento dado.

Vejam o resumo



Atirei o pau no ‘gato’
Uma análise sobre consumo e furto de energia elétrica(dos “novos consumidores”)em um bairro popular de São Gonçalo - RJ
RESUMO
O presente trabalho teve como objetivo investigar um fenômeno sócio-técnico com dimensões culturais abrangentes em nossa sociedade: os chamados "gatos" – ligações irregulares – para obtenção de energia elétrica. No estudo em questão, tratou-se de observá-lo a partir de sua relação direta com o aumento do consumo de bens duráveis e a mudança de estilo de vida de um determinado grupo social. Na condição de funcionária de uma empresa concessionária de energia elétrica, pude iniciar um projeto de pesquisa de cunho etnográfico visando a entender as motivações que levavam os indivíduos a praticarem o "gato" de energia elétrica. Para tanto, realizei trabalho de campo no município de São Gonçalo, localizado na região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, no bairro denominado Coelho, onde residi por oito meses. Como moradora, pude penetrar na vida do bairro e analisar o estilo de vida de um grupo de moradores considerado "a elite local", que, àquela época, fazia parte de um contingente mais amplo da população brasileira que estava adquirindo visibilidade pública, sendo denominado pela mídia como "novos consumidores". Devido ao aumento da renda, à política de juros baixos e aos financiamentos facilitados a partir do Plano Real, estes "novos consumidores" obtiveram mais acesso a bens duráveis, especialmente eletroeletrônicos, elevando assim seu status perante seus iguais. Por meio do consumo, eles almejam inclusão em outro estrato social, as camadas médias urbanas. No entanto, este projeto de mobilidade social não encontrou ressonância na empresa concessionária. Aparentemente desconhecendo pesquisas recentes sobre os "novos consumidores" e partindo da lógica hierárquica existente na sociedade brasileira, a empresa caracterizou sua atuação por uma lógica truculenta de controle, vigilância e punição em relação aos seus usuários. Nenhum projeto de responsabilidade social ou de "inclusão social" foi desenvolvido no sentido de se conhecer melhor os novos hábitos de consumo adquiridos, garantir a esta população seu direito básico de fornecimento e compatibilizar o aumento do consumo de energia elétrica do grupo de forma condizente às suas capacidades de pagamento. Assim, apesar de atemorizados pela vigilância e punição, bem como pelos cortes de fornecimento e multas muitas vezes descabidos, a prática do gato permaneceu comum em todos os setores – comercial, residencial, industrial – independente do nível hierárquico ao qual pertencem. Para tanto, os usuários utilizam táticas (usos e contra-usos da energia elétrica) para combater as estratégias empresariais duras e inflexíveis, a partir de lacunas encontradas no próprio sistema. A política de terceirização dos serviços adotada pela empresa acabou mostrando-se a principal aliada dos usuários; estes encontram no profissional terceirizado um aliado importante, isto é, um "gateiro" altamente profissionalizado e um dos atores e alimentadores interessados do próprio "mercado do gato", que funciona paralelamente, de forma clandestina. A opção por este mercado são as condições de trabalho: mal remunerados, desvalorizados e muitas vezes sabendo que a empresa não cumpre seu papel social, conseguem dessa forma melhorar seus rendimentos, amenizar a exploração de sua mão-de-obra e garantir a energia àqueles que os contratam.

PALAVRAS-CHAVE: “GATO” DE ENERGIA ELÉTRICA, CONSUMO, CONSUMO POPULAR

Banca Examinadora:

Profª. Drª Laura Graziela Gomes – Orientadora (UFF)
Profª. Drª Carla Fernanda Pereira Barros - Co-orientadora (Depto de Estudos Culturais e Mídia UFF/ ESPM)
Profª. Drª Letícia Helena Medeiros Veloso (Depto de Sociologia - UFF)
Profª. Drª Cláudia da Silva Pereira (Depto de Comunicação Social PUC – RJ)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

As duas enchentes do Jabor

Pausa para protesto:

No Rio de Janeiro há duas enchentes, duas. Uma delas é drama. Atingiu a mim, por exemplo, que moro na Lagoa e fiquei ilhado. Chato, muitos outros perderam a hora, tiveram de andar de barquinho, carros boiando. Super chato.

A outra enchente é a tragédia. Barracos deslizando, famílias morrendo na lama. A catástrofe natural ilumina a catástrofe social. As pessoas não estão lá por imprudência, como dizem as autoridades, “ah, não medem o perigo”.

Não são imprudentes, são pobres, não tem onde morar com segurança. A diferença entre drama e tragédia é que tragédia se encerra com a morte inevitável. No Rio há um tipo de tragédia que se repete como um drama sem fim.

O Rio fica mais visível não a luz do sol, com barquinhos na baia a deslizar. O Rio fica mais claro na chuva. Vemos a verdade que se esconde na paisagem. Uma cidade com a grande maioria de pobres e desamparados, a mercê de décadas de governantes irresponsáveis e corruptos.Mas eles estão tranquilos, suas fichas sujas jamais serão exibidas, como vimos hoje (quarta) na Câmara Federal, que adiou o desejo de um milhão e meio de brasileiros.

Os irresponsáveis são até abraçados por político em campanha. Eles só esperam as águas baixarem e as notícias sumirem. Até outra tragédia em que a culpa é dos mortos

Arnaldo Jabor, Jornal da Globo, 07/04/2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Apresentando Argonautas Urbanos

Apresentando: Craft Consumer

por Gabi Leal

Você já ouviu falar no termo craft consumer? (no Brasil, este termo foi traduzido para “consumidor artesão”, no entanto, acho que quando traduzido perde um pouco do significado que a palavra craft carrega – quem faz artesanato sabe bem disso, não é mesmo? – por isso, utilizarei o termo em inglês)

Este termo foi desenvolvido por Colin Campbell para contrapor a idéia de um consumidor tolo e passivo e faz todo o sentido quando tomamos casos empíricos como os provocados pelo “Fiesta Movement”.

Justamente por causa desta inspiração resolvi escrever este post, mostrando as principais idéias por trás do termo craft consumer. O texto-base utilizado no post foi “The Craft Consumer: Culture, craft and consumption in a postmodern society”

(traduzido no Brasil como: O consumidor artesão: Cultura, artesania e consumo em uma sociedade pós-moderna), de Colin Campbell.


***
A frase de Mary Douglas é um bom começo para a explicação de tal termo:

“Os bens são neutros, seus usos são sociais” (DOUGLAS & ISHERWOOD, 2009, p.36).


E é justamente esta idéia que Daniel Miller desenvolve em “Material Culture and Mass Consumption”, a qual foi inspiração para o desenvolvimento do termo craft consumer.

Para Daniel Miller o consumo é um processo onde um material genérico (um produto de consumo de massa) é incorporado em um arranjo de significados particulares. Miller tem como foco o consumo como prática cultural e está interessado em como um bem material pode ser transmutado e ressignificado em diferentes contextos.


O principal insight fornecido por Miller: “grande parte do consumo empreendido por indivíduos nas sociedades contemporâneas deveria ser concebido (...) como uma atividade em que os indivíduos (...) [não somente se apropriam de coisas], mas também trazem habilidade, conhecimento, discernimento, amor e paixão à ação de consumir” (CAMPBELL, 2004, p. 49)


Tendo isto em mente....


A idéia de craft consumer não se refere somente a esta faceta da reapropriação simbólica dos bens materiais, contidas no ato de consumir, mas se direciona a um grupo de consumidores específicos, o qual estabelece uma relação muito particular com o objeto adquirido. Poderíamos, inclusive, localizar os agentes do “Fiesta Movement” neste grupo sob o qual recai o olhar (e o pensamento) de Colin Campbell.


Essas atividades de apropriação por parte do consumidor podem ser chamadas de “ritual de posse”, “isto é, atividades que desempenham a importante função de habilitar os consumidores para adquirir o “título de propriedade” dos bens em questão. (...) Estes rituais ajudam no processo de superar a natureza inerentemente alheia dos produtos fabricados em massa e de assimilá-los no mundo de sentido que pertence ao consumidor.

Esta função é então reforçada pelo que se tem chamado de “rituais de tratamento”, que abrangeriam atividades como lavar e limpar o carro, polir móveis e, naturalmente, lavar e passar as roupas. Todas estas atividades cumprem a mesma e importante função de ajudar os consumidores a apropriar mercadorias padronizadas ou produzidas em massa a seu próprio mundo de sentido individual.

No entanto, não se pode dizer que todas as atividades em que os indivíduos tomam parte após a aquisição de um bem se enquadram na categoria das que revelam o consumo artesanal”. (CAMPBELL, 2004, p. 52)

Então, afinal, quem é craft consumer?

A customização e personalização fazem parte do “ritual de posse” que citei acima, contudo, devem ser diferenciadas do Craft Consumer:

1. Customização: “Um meio convencional pelo qual se poderia dizer que consumidores conquistam o “efeito de apropriação” é o processo de “customizar” produtos padronizados. Aqui, produtos fabricados em massa são “marcados”, seja pelo varejista ou pelo consumidor, de modo a indicar que são propriedade particular de um indivíduo específico” (CAMPBELL, 2004, p. 52).

Ex.: colocar o nome ou as iniciais do consumidor no relógio, caneta, placa do carro personalizada.


2. Personalização: é o ajustamento dos produtos às necessidades dos consumidores e para Campbell este conceito se aproxima mais da idéia de craft consumer. Contudo, “trata-se de um tipo de serviço oferecido com uma freqüência cada vez maior pelos próprios varejistas, de modo que é importante estabelecer a distinção entre tal atividade quando empreendida pelo varejista e o que, por contraste, poderia ser qualificado como uma legítima alteração do próprio usuário.

No entanto, aqui também ainda não é o caso de os consumidores tomarem parte em atividades que resultam em uma modificação significativa na concepção original do produto, embora possam ter de exercitar alguma parcela de habilidade” (CAMPBELL, 2004, p. 53).

Outra forma de personalização refere-se à maneira como os produtos são utilizados, a qual muitas vezes se difere da maneira planejada pelo fabricante. Estes casos são úteis para demonstrar que anunciantes e varejistas não são as únicas fontes de influência em relação a escolha e aos usos dos bens materiais. “O que é especificamente interessante nestes exemplos é poderem ser vistos como ações que visam a recuperar a “singularidade” ou a “unicidade” que eram tradicionalmente a marca de autenticidade do objeto produzido manualmente [handicrafted]” (CAMPBELL, 2004, p. 56).


3. Craft Consumer: é aquele consumidor que modifica a concepção do próprio produto, trata-se de algo que transcende a “demarcação de território” ou a contratação de profissionais que produzam algo especialmente para você, o consumidor, assim como o produtor-artesão, deve estar inteiramente envolvido na concepção e na produção deste novo objeto.

“O que é crucial notar acerca de grande parte desse “consumo artesanal” é que normalmente ele não envolve a “criação” física de um produto. (...) Antes, o que é realmente “criado” é um “conjunto”, ou uma “reunião” de produtos, cada um dos quais pode ser em si mesmo um item padronizado ou produzido em massa.

Ainda, é esse tipo de “criatividade para juntar” que é tão típico do consumidor artesanal moderno, patente, por exemplo, no modo como indivíduos escolhem combinar as roupas que formam um “conjunto”, ou na maneira como eles dispõem móveis e itens decorativos para criar um determinado “estilo” em um cômodo, ou mesmo em suas casas como um todo” (CAMPBELL, 2004, p. 57).


Os craft consumers são dotados de um “capital cultural”, para lembrar Bourdieu, ou seja, são dotados de certas habilidades manuais, criatividades e conhecimentos que podem ser de natureza tanto elitista quanto popular. Para Campbell, a atividade artesanal desses consumidores está localizada na intersecção de “um corpo de conhecimentos práticos adquiridos pessoalmente” com a “moda e a arte” (CAMPBELL, 2004, p. 60).


Para entender melhor esta idéia, podemos retomar os agentes do “Fiesta Movement”: observamos, através das tarefas a serem cumpridas, a incorporação do carro, junto a outros bens materiais de massa, para dar origem a outro conjunto de coisas, um conjunto muito particular, capaz de representar características individuais, próprias de cada participante.

Esta capacidade criativa e habilidade para dar origem a novos “produtos” faz parte do capital cultural do qual cada participante é dotado, o que torna viável esta capacidade de transformação, incorporação e criação a partir de diferentes produtos característicos do consumo de massa.


Referências bibliográficas:


CAMPBELL, Colin. “O consumidor artesão: Cultura, artesania e consumo em uma sociedade pós-moderna”. In GOMES, Laura Graziela & BARBOSA, Livia (org) (2004). Dossiê: Por uma antropologia do consumo. Antropolítica, Niterói, n. 17, 2º sem. 2004.

DOUGLAS, Mary & ISHERWOOD, Baron (1979). O mundo dos bens: para uma antropologia do consumo. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2009.


Quer mais?
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http://argonautasurbanos.blogspot.com/