sábado, 21 de julho de 2012

Estabelecidos x ousiders: cariocas x conterrâneos

Nordestinos se divertem no local com seus filhos         favela,classe c,carioca,diário


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favela,classe c,carioca,diário     Cariocas e o pagode de mesa


Interessante perceber como existem classificações e disputas dentro de um mesmo grupo e/ou comunidade. No caso da favela em que estou morando uma rixa é clara, entre os estabelecidos, cariocas que são locais desde a gênese da favela, e os outsiders, moradores que chegaram na área posteriormente oriundos do nordeste, chamados de conterrâneos pelos locais.
Essa diferenciação e disputa local não são claras logo no primeiro contato. É preciso a convivência diária, ouvir os vizinhos e suas reclamações; é preciso estar lá para perceber essas questões que estão dentro do campo tácito.
Os chamados “conterrâneos” são culpados de tudo, são acusados por terem aumentado demasiadamente as construções e verticalizado a favela, acarretando problemas de insalubridade por falta de sol e de acesso à água e esgoto, que não suporta tamanho crescimento. Além de tudo, são acusados de não se misturarem, de serem individualistas por apenas pensarem em benefício próprio ou sectaristas; se envolvem por problemas que sejam comuns ao seu grupo, ou seja, de conterrâneos que primam pelos mesmos objetivos, valores, vivências. E, para piorar, são acusados de terem destruído na favela o sentimento de família e comunidade numa época remota e nostálgica em que todos conheciam as famílias dos outros, ancestrais, descendentes, todos unidos, partilhando tudo, festas, comida, diversão e sofrimento.
Por outro lado, esses nordestinos são extremamente focados, empreendedores, “raçudos” mesmo. A maior parte do comércio local está nas mãos deles, têm um sorriso solto, são mais desconfiados sim, mas uma vez entrando em seu círculo de confiança, pronto, você os ganhou. E pode contar com eles para tudo, para ajudar na mudança e carregar peso, fazer uma faxina, ou então sentar num bar e comer até se fartar. São extremamente cuidadosos com os filhos, que são proibidos de andar sozinhos pela favela, os pais levam e buscam na escola, lutam por uma boa educação. É como se estivessem dentro do universo da favela, usufruíssem dele, mas não fizessem parte dele. Não se envolvem em campanhas, não se misturam em dias festivos, não partilham nada, nem positiva nem negativamente.
Até mesmo nos momentos de lazer essa separação é evidente: de um lado da praça o samba come solto, os cariocas (grande parte negra) sambam, se divertem, cantam, paqueram... Enfim, aquele pagodão de mesa bem característico do Rio de Janeiro. Do outro lado da praça, mais próximo aos brinquedos infantis, encontram-se os nordestinos, sentados à mesa com suas famílias, vigiando as crianças que brincam nos aparelhos montados (balanço, pula pula, etc) e ficam ali, comendo, conversando ao som do sertanejo universitário e forró (de uns cantores que não conhecemos, mas que fazem parte de um circuito Norte/Nordeste). Quase não há negros no grupo dos nordestinos, mas sim muitos “cabeças-chatas” como eles mesmos se autodenominam.
É notório que os nordestinos têm um compromisso e uma fome de vencer, de sair da mesmice, são extremamente empreendedores e levam o trabalho tão a sério que muitas vezes são motivos de chacota na favela, como se não se divertissem. Suas casas são em sua maioria bem cuidadas, e abrigam muitas outras famílias. É muito comum que na favela os familiares, parentes e conhecidos passem um tempo nas casas dos nordestinos já estabelecidos até se fazerem no Rio. Uma vez, um morador (carioca) me disse “O problema daqui são os conterrâneos, eles são igual aquele filme, em que jogava água no bichinho e quando vê já tem uma dezena deles!” (fazendo alusão aos “Gremilins”).

Morar e viver na favela é fazer parte de tudo isso: conflitos, disputas e classificações. É aí que está a magia do fazer antropológico, perceber e partilhar desse contexto todo, interagindo e observando esses modos de ser, usar, consumir.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Os usos dos espaços: Festa do Beco

A favela em que resido e faço pesquisa no momento tem um problema sério de falta de espaço. O adensamento e a verticalização das casas é uma realidade e as ruelas e becos se transformam em centros de lazer e entretenimentos locais.
Essa semana pude participar de um churrasco em pleno beco. Sim, tudo muito improvisado; desde a iluminação pública – praticamente inexistente, dependendo de um arranjo técnico local – à churrasqueira, passando pelas cadeiras e mesas, tudo arranjado, adaptado ao contexto e situação local. Isso tudo sem esquecer a maior dificuldade já mencionada: a falta de espaço, lembra?
Sim, foi divertido. Ficamos horas e horas batendo papo, com risadas e fumaça na porta dos vizinhos que não estavam participando e não tinham direito de reclamar do barulho ou do cheiro, pois, afinal de contas, “a rua é pública”, como disse uma nova interlocutora percebendo meu estranhamento e incômodo. Eu, particularmente, não gosto de ficar incomodando os outros, não conseguiria me divertir em paz, mas eu, particularmente, sou assim; muitas vezes penso mais nos outros do que em mim. Só que ali o contexto era outro, diversão nunca pode ser criticada se feita de forma familiar e saudável (segundo meus novos amigos).
Todos sabiam da minha pesquisa e ficavam me apresentando em tom jocoso a forma de se divertir e conviver... O convite aceito imediatamente por mim foi festejado! Dividir minhas experiências de pesquisas anteriores tomou conta da conversa naquela noite.
No cardápio linguiça, drumet de frango (asinha e coxinha da asa), pão com maionese e alho, e pratinho de arroz e macarrão temperados. Cerveja gelada dava o tom festivo da ocasião. Crianças brincando com bicicletas e bolas estavam presentes e faziam o clima mais alegre com suas risadas e intervenções criativas.
Durante o churrasco no beco passavam moradores chegando do trabalho, alguns vinham de outras festas e happy hours, passavam também traficantes com armas, com bolos de dinheiro ou sacos de drogas nas mãos. Eles nos cumprimentaram, assim que passaram pela gente, e um convite para uma festa de aniversário de um dos gerentes da boca foi feito e aceito por todos na hora. Fiquei empolgada.
Infelizmente acabei não indo, faltou companhia, local confiável para o evento e, decididamente, eu não poderia ir sozinha. Apesar da minha ansiedade em participar e ver de perto como ocorre tal comemoração tão inusitada para mim – aniversário do traficante em praça pública não é todo dia que a gente tem condições e possibilidade de participar.
Ficou para outro dia.
Marcamos outros encontros, dessa vez em um dos bares mais comentados da favela, onde nordestinos servem um famoso gurjão de peixe, confesso que estou ansiosa. O trabalho de campo corre bem, tem sido muito bem aceito pelos moradores da favela que se sentem empolgados em mostrar para mim o lado bom de viver em comunidade, que, apesar das diferenças e gravidade, encontram nos becos e ruelas a alegria de partilhar e compartilhar comida, risada e muita diversão.
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quarta-feira, 27 de junho de 2012

A arrogância segundo os medíocres

 




“Adorei o seu sapato”, disse uma amiga para mim certa vez.
“Legal, né? Eu comprei em uma feira de artesanato na Colômbia, achei super legal também”, eu respondi, de fato empolgada porque eu também adorava o sapato. Foi o suficiente para causar reticências quase visíveis nela e no namorado e, se não fosse chato demais, eles teriam dado uma risadinha e rolariam os olhos um para o outro, como quem diz “que metida”. Mas para meia-entendedora que sou, o “ah…” que ela respondeu bastou.
Incrível é que posso afirmar com toda convicção que, se tivesse comprado aquele sapato em um camelô da 25 de março, eu responderia com a mesma empolgação “Legal, né? Achei lá na 25!”. Só que aí sim eu teria uma reação positiva, porque comprar na 25 “pode”.
Experiências como essa fazem com que eu mantenha minhas viagens em 13 países, minha fluência em francês e meus conhecimentos sobre temas do meu interesse (linguística, mitologia, gastronomia etc) praticamente para mim mesma e, em doses homeopáticas, comente entre meu restrito círculo familiar e de amigos (aquele que a gente conta nos dedos das mãos).
Essa censura intelectual me deixa irritada. Isso porque a mediocridade faz com que muitos torçam o nariz para tudo aquilo que não conhecem, mas que socialmente é considerado algo de um nível de cultura e poder aquisitivo superior. E assim você vira um arrogante. Te repudiam pelo simples fato de você mencionar algo que tem uma tarja invisível de “coisa de gente fresca”.
Não importa que ele pague R$ 30 mil em um carro zero, enquanto você dirige um carro de mais 15 anos e viaja durante um mês a cada dois anos para o exterior gastando R$ 5 mil (dinheiro que você, que não quer um carro zero, juntou com o seu trabalho enquanto ele pagava parcelas de mil reais ao mês). Não importa que você conheça uma palavra em outra língua que expressa muito melhor o que você quer falar. Você não pode mencioná-la de jeito nenhum! Mas ele escreve errado o português, troca “c” por “ç”, “s” por “z” e tudo bem.
Não pode falar que não gosta de novela ou de Big Brother, senão você é chato. Não pode fazer referência a livro nenhum, ou falar que foi em um concerto de música clássica, ou você é esnobe. Não ouso sequer mencionar meus amigos estrangeiros, correndo o risco de apedrejamento.
Pagar R$200 em uma aula de francês não pode. Mas pagar mais em uma academia, sem problemas. Se eu como aspargos e queijo brie, sou “chique”. Mas se gasto os mesmos R$ 20 (que compra os dois ingredientes citados) em um lanche do Mc Donald’s, aí tudo bem. Se desembolso R$100 em uma roupa ou acessório que gosto muito, sou uma riquinha consumista. Mas gastar R$100 no salão de cabeleireiro do bairro pra ter alguém refazendo sua chapinha é considerado normal. Gastar de R$30 a R$50 em vinho (seco, ainda por cima) é um absurdo. Mas R$80 em um abadá, ou em cerveja ruim na balada, ou em uma festa open bar… Tranquilo!
Meu ponto é que as pessoas que mais exercem essa censura intelectual têm acesso às mesmas coisas que eu, mas escolhem outro estilo de vida. Que pode ser até mais caro do que o meu, mas que não tem a pecha de coisa de gente arrogante.
O dicionário Aulete define a palavra “arrogância” da seguinte forma:
1. Ação ou resultado de atribui a si mesmo prerrogativa(s), direito(s), qualidade(s) etc.
2. Qualidade de arrogante, de quem se pretende superior ou melhor e o manifesta em atitudes de desprezo aos outros, de empáfia, de insolência etc.
3. Atitude, comportamento prepotente de quem se considera superior em relação aos outros; INSOLÊNCIA: “…e atirou-lhe com arrogância o troco sobre o balcão.” (José de Alencar, A viuvinha))
4. Ação desrespeitosa, que revela empáfia, insolência, desrespeito: Suas arrogâncias ultrapassam todo limite.
Pois bem. Ser arrogante é, então, atribuir-se qualidades que fazem com que você se ache superior aos outros. Mas a grande questão é que em nenhum momento coloco que meus interesses por línguas estrangeiras, viagens, design, gastronomia e cultura alternativa são mais relevantes do que outros. Ou pior: que me fazem alguém melhor que os outros. São os outros que se colocam abaixo de mim por não ter os mesmos interesses, taxar esses interesses de “coisa de grã-fino” (sim, ainda usam esse termo) e achar que vivem em um universo dos “pobres legais”, ainda que tenham o mesmo salário que eu. E o pior é que vivem, mesmo: no universo da pobreza de espírito.

Fonte: http://ansiamente.wordpress.com/2012/05/10/a-arrogancia-segundo-os-mediocres/?goback=%2Egmp_4439178%2Egde_4439178_member_125920814

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O último beijo.

"Muitas vezes o paraíso e o inferno são o mesmo lugar.
Maridos que já acompanharam suas esposas em lojas de cosméticos sabem do que estou falando. Enquanto para elas é um paraíso experimentar todas as paletas de cores possíveis de batons Mac ou Shu Uemura, para eles é o inferno com ar condicionado.
Isso até o momento em que eles descobrem o preço de cada batom desses.
Nessa hora, se dão conta que o inferno tem sim subsolo e que tem um lugar reservado para eles perto do banheiro. Onde, por acaso, o ar condicionado quebrou.
Aí entramos na eterna discussão do que é supérfluo e do que é essencial.
Um conflito que nasce da percepção que cada um tem do mundo e do valor intrínseco das coisas. O delicado terreno do intangível.
O que é supérfluo para você pode ser essencial para mim.
Ou como já disse Oscar Wilde: dê-me o supérfluo que eu abro mão do essencial.
Quantas vezes já não vimos maridos criticando suas esposas por gostarem de novela? Não entendem porque elas acompanham fervorosamente, rindo, chorando, torcendo pela mocinha a cada capítulo.
E esses mesmos maridos não gritam, choram e acompanham fervorosamente as partidas de futebol de seus times pela TV?
Não é no fundo a mesma coisa?
O futebol não é a novela dos homens?
E a novela é não é o futebol das mulheres?
Entendam aqui que estou sendo propositalmente maniqueísta no exemplo acima, só a título de ilustração.
Mas… e o batom?
Assim como todos os outros aparatos da indústria cosmética e da moda, não são objetos de culto ao supérfluo, ao superficial, a frivolidade, a aparência?
Vou deixar a resposta a essa pergunta, ironicamente, para um militar: o Tenente-Coronel Mervin Willett Gonin.
Um herói da 2ª Guerra Mundial, que estava entre os primeiros soldados britânicos que em abril de 1945 libertaram os prisioneiros de Bergen-Belsen, um dos mais cruéis campos de extermínio nazista.
Reproduzo alguns trechos de seu diário, tentando ser o mais fiel possível ao contexto de seu relato.
“Não consigo dar nenhuma descrição adequada do campo de horror no qual os meus homens e eu tínhamos de passar o próximo mês das nossas vidas.
Corpos jaziam por todo o lado, alguns em montes enormes, algumas vezes jaziam sozinhos ou em pares onde tinham caído. Demorou algum tempo para se habituar a ver homens, mulheres e crianças a desfalecer enquanto passavam por eles e resistir ao impulso de ir ao seu auxílio.
Cada pessoa tinha de se habituar à ideia que um indivíduo não contava. Todos sabíamos que estavam morrendo quinhentas pessoas por dia e que outras quinhentas pessoas por dia iam morrer durante semanas até que algo que nós tivéssemos feito começasse a surtir o mínimo efeito.
Era, muito difícil ver uma criança asfixiando com difteria quando sabíamos que uma traqueotomia e alguns cuidados básicos estavam a caminho para salvar. Homens comendo vermes enquanto agarravam um pedaço de pão unicamente porque eles tinham de comer vermes para sobreviver e naquele momento pouca diferença sentiam. Uma mulher completamente nua lavava-se com sabão e com a água de um tanque onde os restos mortais de uma criança flutuavam.
Foi pouco tempo depois da vinda da Cruz Vermelha Britânica , embora possa não haver ligação, que uma grande quantidade de batom chegou. Isto não era nada do que nós homens queríamos, estávamos clamando por centenas e milhares de outras coisas e não sabíamos quem tinha pedido batom.
Só queria descobrir quem foi que o fez, foi uma ação de gênio, brilhantismo puro e inalterado. Creio que nada fez mais por estas prisioneiras que o batom. Mulheres jaziam nas camas sem lençóis ou camisolas mas com lábios escarlates. Víamos algumas mulheres vagando com nada mais que uma manta nos ombros, mas com lábios vermelho escarlate.
Vi uma mulher morta na mesa de autópsia que ainda agarrava o batom com as mãos. Finalmente alguém fez algo para tornar pessoas indivíduos novamente, elas eram alguém, não mais somente o número de identificação tatuado no braço. Finalmente elas podiam ter algum interesse na sua aparência.
Aquele batom começou a devolver-lhes a sua humanidade.”

Fonte: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/blog-do-management/2012/06/20/o-ultimo-beijo/

domingo, 10 de junho de 2012

Mudando para a favela: Vai um “gato” aí?


 

Postado por Hilaine Yaccoub - 05/06/2012
favela,gato,diário,hilaine,blog Enfim terminei a mudança para a favela nesse sábado. O que percebi foi uma curiosidade dos vizinhos e transeuntes, olhares atentos a todos os movimentos de carrega, sobe, desce, arruma, leva e traz. Alguns brincaram com o esforço em vão quando as panelas acabaram caindo da minha mão. “Está chovendo panela?” - brincou um senhor passando por mim.

Outro, o vizinho da frente, um português ainda com sotaque carregado, apesar dos seus 50 anos de Brasil, sendo 42 deles vividos na favela, chamou a minha atenção para o carro parado na frente da nova residência: “Olha, é melhor vocês tirarem logo esse carro, porque os meninos lá não vão gostar nada disso”. Leia-se meninos = traficantes locais.

Mais que depressa abro a mala do carro para mostrar o botijão de gás dentro. Serviços de entrega??? Não conhecia e os meus contatos da localidade também não. Lá fomos nós, eu e meu parceiro de pesquisa carregar escada acima aquele peso todo.

Arrumada a casa, itens em ordem, primeiras compras (suprimentos) devidamente armazenados, lá fomos nós descobrir como instalar os serviços. Na pequena favela (cerca de 22 mil habitantes), existem duas lojas de construção que são referência para todos os tipos de serviços. Ao entrar em uma delas perguntamos sobre o valor da antena de TV, afinal de contas, ficar sem televisão nesse momento não dá. O papo principal do salão, dos vizinhos está relacionado com a novela, com o fantástico etc. Chegando à loja, papo vai, papo vem, comento com o proprietário, um senhor de meia idade muito atencioso e solícito, que logo percebeu que eu era um peixe fora d´água, que gostaria mesmo era de uma TV a cabo (na verdade eu queria testar a resposta).

Mais que depressa ele nos disse: “Ah, mas vocês tão querendo os gatos todos?!” - fiquei curiosa, “gatos todos”? O que seria?

Logicamente que insisti, ri um pouco e perguntei de forma solta e engraçada, “gatos todos? Como é isso?”. Ele mais que depressa perguntou meu endereço e disse que o Roger é quem cuida da minha área e, detalhe, era com ele eu trataria dos “gatos” de internet, de TV, de luz etc. “O Roger é o cara!”, pensei.

Agora me encontro à espera do famoso “profissional” responsável pela minha área, para resolver todos os problemas da minha vida. Fácil assim... tudo com a mesma pessoa, sem precisar ligar, esperar, explicar, ser transferida para outro atendente, e outro, e outro, explicar tudo novamente, anotar protocolo, agendar visita, ficar presa o dia todo esperando o técnico, torcer para a conta e o pacote não virem errados. É, realmente, morar e viver na favela tem, sim, pontos positivos e esse com certeza é um deles. E viva o Roger!
Fonte: http://mundodomarketing.com.br/blogs/diario-das-classes-c-d-e-e

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O salão de beleza é o boteco das mulheres

O salão de beleza é o boteco das mulheres

Postado por Hilaine Yaccoub - 01/06/2012
O salão de beleza é o boteco das mulheresImpressionante como ainda encontramos na sociedade lugares específicos para os diferentes gêneros, homens e mulheres. Obviamente que nas camadas populares isso não poderia ser diferente. Tanto no bairro popular, que residi por 8 meses na região metropolitana no Rio de Janeiro para a realização da pesquisa que culminou na minha dissertação de mestrado, quanto na favela escolhida para o trabalho de campo da tese de doutorado. Salões e bares imperam. Eu mesma frequentei um salão de beleza semanalmente para dialogar e entender o universo das mulheres locais.

Interessante observar que há tantos salões quanto bares, e estes são bastante movimentados quintas, sextas e sábados. Ou as mulheres se arrumam para curtir (lindas) o fim de semana, ou só tem esses dias para se prepararem para a semana de trabalho seguinte. Afinal de contas, elas precisam estar impecáveis tanto para o lazer quanto para o trabalho. E essa é uma norma inquestionável.

No salão elas estabelecem vínculos, conversam e desabafam. É a famosa “conversa de salão” - nome de um programa de TV da GNT inclusive - que ocorre e acaba sendo uma válvula de escape; cuidam da aparência, da beleza e cumprem a “sua obrigação”, porque, para elas, cuidar da aparência é uma obrigação e não uma simples escolha ou opção. Essa proximidade faz com que ocorram conversas íntimas como em consultórios de psicólogos. Não existe a psicologia de bar? Pois é, existe também a psicologia de salão.

O salão de beleza é o boteco das mulheresNeste lugar de intimidade, o salão de beleza, lágrimas e gargalhadas estão presentes. As profissionais tornam-se amigas de suas clientes, há um gosto e um respeito pela relação estabelecida com regras de fidelidade e lealdade como qualquer relação de afeto. Ali, naquele lugar, a mulher se despe, fica feia pra ficar bonita, sofre para atingir a perfeição, pelos arrancados, puxões e ardidos são sentidos, tudo em prol do objetivo final: parecer mulher.

As camadas populares veem nos cuidados da aparência além do embelezamento supérfluo. Existe uma linha muito tênue entre a busca da beleza, a potencialização da feminilidade e o compromisso com a política da boa aparência (“eu sou pobre, mas sou limpinho”).

A pobreza diretamente ligada à limpeza é uma máxima que persiste e que está no inconsciente coletivo. Além da limpeza doméstica com uso de produtos de primeira linha estar bem apresentado, ter roupa pra sair, ter perfume certo para cada ocasião, usar a melhor maquiagem e o melhor sapato quando se está em público é uma constante que vem se reproduzindo a várias gerações. Essa forma de usar produtos, vestuário, de se estabelecer regras para seus usos, são desenvolvidos, reproduzidos e ensinados, aos filhos, aos parentes, aos amigos, aos vizinhos.

O salão de beleza é o boteco das mulheresA busca por essa potencialização da beleza, através de unhas enormes, muito bem feitas e pintadas com cores vibrantes, assim como cabelos muito bem cuidados, pintados, longos, alisados, as peles sedosas e brilhantes, devido ao uso de cremes hidratantes, faz parte do figurino desta construção do corpo feminino, ou seja, são necessidades simbólicas que traduzem o que é ser mulher. As roupas, por sua vez, complementam esse ser feminino; flores, estampas, cores de mulher, como rosa e vermelho, além de toda gama de cores quentes, enfim, a mulher quer parecer mulher. Esse parecer mulher dessa forma é uma construção cultural em nossa sociedade.

Essa busca por ser e parecer mulher me faz parar para pensar um pouco sobre o esforço que é para conquistar e manter este status em nossa sociedade. Há uma famosa frase da Simone de Bevoir, muito utilizada pela antropóloga Mirian Goldenberg, minha professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que traduz e revela que ser mulher é uma construção cultural e não natural. “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”

De fato, o sexo está entre as pernas e o gênero está entre as orelhas. Nossas experiências vividas, aprendidas e reproduzidas nos dizem ser quem somos, nos classificam e junto delas vêm as obrigações relacionadas a cada grupo. Pra ser mulher, portanto é preciso muito mais do que nascer mulher em nossa sociedade.
Fonte: http://mundodomarketing.com.br/blogs/diario-das-classes-c-d-e-e

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A conveniência é o rito da localidade

Fonte: http://mundodomarketing.com.br/blogs/diario-das-classes-c-d-e-e
O código que se impõe ao usuário do bairro ou favela é chamado de “conveniência”, e possui duas leituras. Revela-se pela maneira de apresentar-se perante a sociedade, o que veste, como se comporta, entre outros fatores que reafirmam e legitimam praxes e usos estabelecidos. De outro lado, “o léxico dos benefícios”, a conformidade com o sistema de regras. Moradores de favelas e de muitos bairros convivem com duas moralidades, que muitas vezes se opõem.
O historiador Michel De Certau, ao tomar o cotidiano como objeto de estudo, aponta que essa conveniência estabelece leis, regras de condutas que devem ser obedecidas, ou, como ele aponta, “regras do uso social” que auxiliam “no jogo dos comportamentos”, impondo uma
"...justificação ética dos comportamentos, que se poderia medir intuitivamente, pois os distribui em torno de um eixo organizador de juízos de valor: a “qualidade” da relação humana tal como ela se desenvolve nesse instrumento de verificação social que é a vizinhança não é a qualidade de um ‘know-how social mas de um “saber-viver-com”; à constatação do contato ou do não contato com este outro que é o vizinho...sem somar-se a uma apreciação, uma fruição desse contato". (DE CERTEAU, 2008, p.49)

O autor afirma que, nesse momento, entra-se no terreno do simbólico, onde todas as relações são “regulação interna dos comportamentos como efeito de uma herança”, seja ela afetiva, política ou econômica. O lugar é o palco dos usos estabelecidos por esses usuários que possuem essa ligação, compulsória ou não, mas que existe e é obrigatoriamente exercitada. “A conveniência é o rito do bairro”, cada usuário (ou consumidor) se submete às suas regras em prol da boa convivência, manutenção do relacionamento, no qual há trocas. Muitas vezes, são relações tão próximas que chegam a ser comparadas a parentais.

Trazendo essa teoria para o tema dos usos dos serviços públicos essenciais, por exemplo a energia elétrica, temos uma herança instaurada, seja no bairro, em uma favela, em uma vila, dentro de uma casa: o da manipulação da energia elétrica. A ligação clandestina popularmente conhecida por “gato” se consolidou, por décadas, pelas “maneiras de usar”, pautadas na permissão conferida pela estrutura hierárquica estrutural brasileira, de apropriação do público que não tem dono (a rua) pelo privado (a casa). Luis Dumont, em Homo æqualis (2000), destaca que, na ética das sociedades hierárquicas, o valor do indivíduo e suas necessidades estão sempre submissos aos valores e interesses da sociedade. Nas sociedades individualistas, o indivíduo impõe suas necessidades e valores acima dos interesses do todo. As pessoas agem a partir de uma lógica privada, sem se importar com o ônus dos outros, que terão ao pagar pelos “gatos” deles.
No entanto, ao entrar no universo das favelas, onde a universalização do serviço realizado pelas concessionárias é precária por vários motivos, como falta de segurança que deve ser garantida pelo Estado, assim como também pouco interesse comercial das próprias concessionárias na regularização dos serviços temos outras questões para se pensar. O “gato” vira arranjo técnico, uma saída emergencial para a garantia do uso de bens e serviços. Como questionar, criminalizar, ou até mesmo classificar este fenômeno dada as condições naquele contexto?
Mesmo não partilhando moralmente dos contra-usos, dos “gatos”, me vejo atualmente com este dilema, para ter internet, energia elétrica ou água potável, ou eu recorro aos “gatos” e toda sua rede de técnicos comunitários ou simplesmente vivo sem os serviços essenciais que são direito de todo cidadão. Lidar cotidianamente com esta realidade me faz enxergar que é preciso sobretudo relativizar classificações. O “gato” para cidade formal (o bairro por exemplo) é a extensão de rede que muitos possuem na favela, produzidas pelos eletricistas (ou curiosos) locais com a simples finalidade de fazer garantir um direito que lhes é negado, ser consumidor.

Referencias Bibliográficas utilizadas:
CERTEAU, M. De. GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano 2 : morar, cozinhar. Petrópolis, RJ, Vozes, 2008.
DUMONT, Louis. Homo Aequalis. Gênese e plenitude da ideologia econômica. Bauru, EDUSC, 2000.
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