quinta-feira, 24 de maio de 2012

A conveniência é o rito da localidade

Fonte: http://mundodomarketing.com.br/blogs/diario-das-classes-c-d-e-e
O código que se impõe ao usuário do bairro ou favela é chamado de “conveniência”, e possui duas leituras. Revela-se pela maneira de apresentar-se perante a sociedade, o que veste, como se comporta, entre outros fatores que reafirmam e legitimam praxes e usos estabelecidos. De outro lado, “o léxico dos benefícios”, a conformidade com o sistema de regras. Moradores de favelas e de muitos bairros convivem com duas moralidades, que muitas vezes se opõem.
O historiador Michel De Certau, ao tomar o cotidiano como objeto de estudo, aponta que essa conveniência estabelece leis, regras de condutas que devem ser obedecidas, ou, como ele aponta, “regras do uso social” que auxiliam “no jogo dos comportamentos”, impondo uma
"...justificação ética dos comportamentos, que se poderia medir intuitivamente, pois os distribui em torno de um eixo organizador de juízos de valor: a “qualidade” da relação humana tal como ela se desenvolve nesse instrumento de verificação social que é a vizinhança não é a qualidade de um ‘know-how social mas de um “saber-viver-com”; à constatação do contato ou do não contato com este outro que é o vizinho...sem somar-se a uma apreciação, uma fruição desse contato". (DE CERTEAU, 2008, p.49)

O autor afirma que, nesse momento, entra-se no terreno do simbólico, onde todas as relações são “regulação interna dos comportamentos como efeito de uma herança”, seja ela afetiva, política ou econômica. O lugar é o palco dos usos estabelecidos por esses usuários que possuem essa ligação, compulsória ou não, mas que existe e é obrigatoriamente exercitada. “A conveniência é o rito do bairro”, cada usuário (ou consumidor) se submete às suas regras em prol da boa convivência, manutenção do relacionamento, no qual há trocas. Muitas vezes, são relações tão próximas que chegam a ser comparadas a parentais.

Trazendo essa teoria para o tema dos usos dos serviços públicos essenciais, por exemplo a energia elétrica, temos uma herança instaurada, seja no bairro, em uma favela, em uma vila, dentro de uma casa: o da manipulação da energia elétrica. A ligação clandestina popularmente conhecida por “gato” se consolidou, por décadas, pelas “maneiras de usar”, pautadas na permissão conferida pela estrutura hierárquica estrutural brasileira, de apropriação do público que não tem dono (a rua) pelo privado (a casa). Luis Dumont, em Homo æqualis (2000), destaca que, na ética das sociedades hierárquicas, o valor do indivíduo e suas necessidades estão sempre submissos aos valores e interesses da sociedade. Nas sociedades individualistas, o indivíduo impõe suas necessidades e valores acima dos interesses do todo. As pessoas agem a partir de uma lógica privada, sem se importar com o ônus dos outros, que terão ao pagar pelos “gatos” deles.
No entanto, ao entrar no universo das favelas, onde a universalização do serviço realizado pelas concessionárias é precária por vários motivos, como falta de segurança que deve ser garantida pelo Estado, assim como também pouco interesse comercial das próprias concessionárias na regularização dos serviços temos outras questões para se pensar. O “gato” vira arranjo técnico, uma saída emergencial para a garantia do uso de bens e serviços. Como questionar, criminalizar, ou até mesmo classificar este fenômeno dada as condições naquele contexto?
Mesmo não partilhando moralmente dos contra-usos, dos “gatos”, me vejo atualmente com este dilema, para ter internet, energia elétrica ou água potável, ou eu recorro aos “gatos” e toda sua rede de técnicos comunitários ou simplesmente vivo sem os serviços essenciais que são direito de todo cidadão. Lidar cotidianamente com esta realidade me faz enxergar que é preciso sobretudo relativizar classificações. O “gato” para cidade formal (o bairro por exemplo) é a extensão de rede que muitos possuem na favela, produzidas pelos eletricistas (ou curiosos) locais com a simples finalidade de fazer garantir um direito que lhes é negado, ser consumidor.

Referencias Bibliográficas utilizadas:
CERTEAU, M. De. GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano 2 : morar, cozinhar. Petrópolis, RJ, Vozes, 2008.
DUMONT, Louis. Homo Aequalis. Gênese e plenitude da ideologia econômica. Bauru, EDUSC, 2000.
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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Churrasco e fartura: festa boa é festa que tem sobra

Fui a uma festa muito interessante em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Era um chá de bebê que visava à arrecadação de fraldas descartáveis. Para isso, foi feita uma grande festa, com bolo, docinhos, brincadeiras com os noivos e, é claro, um churrasco.

O que me chamou atenção foi exatamente essa tendência de se comemorar tudo com um churrasco. Na chegada ao condomínio popular (desses tipo COHAB), havia um complexo de salões de festas com três espaços diferenciados para comemorações. Um deles ficava à beira de uma quadra de futebol bem simplória, o outro ficava junto a uma cantina e o terceiro (onde ocorreu a festa para a qual fui convidada) era maior e ficava no andar de cima.

Perceptivelmente maior, com melhor acabamento de pisos e azulejos. O mais impressionante é que todos estes lugares continham uma churrasqueira.
Neste espaço não havia ventilação necessária e, é claro, o lugar tinha um fog que nos deixava defumados. As carnes e pães com maionese estavam dispostos na grelha, e o churrasqueiro improvisado dava seus pitacos e ostentava suas técnicas nada convencionais para arrumação, tempero e corte das carnes especialmente compradas para ocasião.

Eu não sei por que, mas a linguiça imperou. Era linguiça com farofa, com molho, com pão... Depois de algumas horas me fazia a pergunta se o churrasco era de linguiça. Ate que surgem os frangos e os comentários acerca do tempero tomam conta da mesa. Comida boa é comida temperada... e farta.
Uma coisa que achei bem curiosa foi que em uma das mesas havia um saco plástico com um pano molhado dentro. O saco ficava aberto e após beliscarem a linguiça e o frango, passavam o dedo no pano para tirar a gordura. Experimentei e deu certo. Pra que guardanapo? O grupo tinha suas próprias estratégias e, apesar de nada convencionais, funcionavam. É o saber prático se fazendo presente.
Havia também uma mesa com vários vasilhames milimetricamente arrumados. Eram vasilhas bem grandes que foram sendo preenchidas ao longo da tarde... arroz, feijoada (ué, não era churrasco? Me perguntei), farofa e macarrão (macarrão?). Sim, macarrão com muito ovo de codorna.
Após a grande fila que se formou (e eu não pude fotografar por motivos de direito de imagem), a mesa de doces foi saqueada. Não, não era para comer... Era para levar. Uma horda de senhorinhas começou a juntar lembrancinhas e doces para levar. Nessa hora, copos plásticos vazios eram disputados, assim como os sacos plásticos de supermercados. As bolsas enormes pareciam ter sido escolhidas com esse propósito – para caber mais.
Outro movimento ocorreu quando o bolo foi partido: pedidos e mais pedidos de bolo para os que não puderam comparecer, mães, pais, avós, filhos... Pedaços e mais pedaços foram sendo partidos, e eram enormes... todos enrolados em papel alumínio.

Foi ficando tarde e eu continuava la... Até que os donos da festa começaram uma campanha para que os parentes mais próximos levassem parte da comida que havia sobrado e a luta por vasilhames de plástico menores começou.

O prazer de sair da festa com a sensação de ter sido bem servido, e mais, de sair de lá carregado de quitutes para o dia seguinte era notório. Aquela, sim, tinha sido uma boa festa. Problema em sair defumado? Nenhum. Problema em não ter garçom para servir? Nem repararam. A música alta, evangélica, tocando sem qualquer embaraço? Nem perceberam.

Foi uma tarde prazerosa, com muita comida, muita fartura e, portanto, muita diversão. Até que a anfitriã senta ao meu lado e diz: “O melhor da festa é quando todo mundo vai embora e podemos organizar tudo que queremos carregar”. Concordei com um sorriso no rosto e fiz a minha marmita. Afinal de contas, eu não iria contrariar a dona da festa.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Call for paper - Encontro Nacional de Estudos de Consumo



EMENTADO EVENTO

Nas duas últimas décadas, o tema da sustentabilidade socioambiental tornou-secentral nas sociedades contemporâneas. O impacto da emissão de gases de efeitoestufa, o consumo de água e energia não renovável, a perda de biodiversidade, anecessidade de redução e reciclagem de resíduos, entre tantos outros temas,passaram a ser objeto de acordos internacionais, de políticas públicas, deiniciativas empresariais, de reportagens da grande mídia, de ações demovimentos sociais e de acaloradas discussões no meio acadêmico. Hoje já hácerto consenso de que mesmo com mudanças dramáticas nas políticas públicas, nastecnologias produtivas e nas fontes energéticas, grande parte dos impactosambientais permanecerá, uma vez que são produzidos também na esfera doméstica,ou seja, na forma como os recursos naturais e a energia do planeta são usadospor uma classe consumidora global de 1,7 bilhão de pessoas espalhadas por todosos continentes. Isso significa que a sustentabilidade precisa ser pensada, maisdo que nunca, a partir do consumidor final. Vida sustentável (sustainableliving) é o conceito que sintetiza esta relação entre práticas de consumocotidianas e sustentabilidade. Tal conceito inclusive nos obriga a recolocar em questão as próprias relações entre consumo e produção. Entretanto, a tarefa de redefinir e mudar práticas sociais é mais complexa do que campanhas e políticas públicas podem nos levar a crer. Práticas constituem-se em discursos e fazeresque se desenvolvem, se associam e se desmembram em novas práticas, cada uma implicando em novas formas de consumo.

O VI Encontro Nacional de Estudosdo Consumo e o II Encontro Luso-Brasileiro de Estudos de Consumo têm comoobjetivo central discutir, tanto teórica quanto metodologicamente, o conceitode Vida Sustentável, além de analisar, de um ponto de vista sociológico amplo edistanciado, as práticas sociais e estilos de vida que constituem o viver nasociedade contemporânea. Trabalhos empíricos sobre práticas domésticas, consumode água e energia, mobilidade urbana, transporte e logística, uso e adoção detecnologias ecológicas na esfera doméstica, sobre o morar e sobre novas formasde articular a produção e o consumo, entre outros temas, serão de grandeinteresse, bem como a própria concepção simbólica e prática do que é “viver deforma sustentável” na sociedade contemporânea.

CHAMADA PARATRABALHOS
Convidamos pesquisadores e estudantes de pós-graduação (mestrado e doutorado) a enviar propostas de trabalhos baseadas em reflexões teóricas e/ou resultados de pesquisas empíricas, em consonância com o tema de um dos Grupos de Trabalhor elacionados abaixo. Cada autor e co-autor podem enviar quantas propostas desejarem.

As propostas devem ser submetidas primeiramente sob a forma de resumos expandidos. Os coordenadores de cada GT os analisarão e selecionarãoaqueles trabalhos que serão apresentados no evento. Após a seleção dos resumosexpandidos, os autores devem encaminhar o paper completo, de acordo comas datas estabelecidas abaixo.

CALENDÁRIO
Prazopara o envio de resumos expandidos: 30 de maio de 2012
Divulgaçãodo resultado da seleção de resumos expandidos: 30 de junho de 2012
Prazopara o envio dos trabalhos completos: 15 de agosto de 2012

FORMATAÇÃO DOS RESUMOS
Os autores devem submeter o resumo expandido através do site (www.estudosdoconsumo.com.br). Os resumos devem ter no mínimo 3.000 caracteres e no máximo 4.000 caracteres (com espaços). Serão aceitos trabalhos em português, inglês e espanhol.

GRUPOS DE TRABALHO
Politização  e ambientalização do consumo
Consumo e  inclusão social
Moda,  gostos e estética
Globalização  e circulação de bens e pessoas
Tendências  do consumo alimentar
Consumo,  marketing, comunicação e sociedade
Cidadãos  e consumidores na rede: dramas, confrontos e participação
Mercados  informais, ilícitos e “alternativos”


INSCRIÇÕES
Asinscrições devem ser feitas através do site www.estudosdoconsumo.com.br e terão preços diferenciados para pagamento antecipado:



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Favela: um condomínio sem estatuto e com muitas regras implícitas

Postado por Hilaine Yaccoub - 25/04/2012
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Morar num espaço de favela tem algumas questões que só morando mesmo para entender. A princípio não há com quem reclamar... Se o vizinho fala alto e briga com os filhos e te atrapalha a ver novela ou Jornal Nacional, ou se rola briga entre marido e mulher, como se meter? Para quem interfonar? Se a coisa ficar violenta chamamos a polícia????

Se há uma infiltração é preciso muito tato para falar com o vizinho de cima, muitas vezes é melhor arcar com o prejuízo. Estabelecer boas relações com os vizinhos para garantir uma boa convivência é vital, seja na hora do aperto porque é ele que muitas vezes irá te salvar na hora de uma doença ou uma necessidade (um copo de açúcar, ou leite, ou ovos) ou na hora de estabelecer condutas e regras de convivência, que devem ser conversadas com muito jeitinho.

Uma vizinha me contou que morar no andar do meio de qualquer sobrado na favela é a pior coisa que existe. E eu acabo de alugar um, no segundo andar de um miniprédio de 3 andares (se posso dar essa classificação edilícia). Primeiro ela aponta que quem mora no último andar tem acesso às caixas d’água e ao terraço, espaço muito valorizado, a laje é espaço criado, este lugar serve de entretenimento e quintal, portanto, tem privilégios. Além disso, pode servir de base para a construção de um outro andar... E a favela assim se verticaliza.

Quem mora no andar térreo não precisa subir escadas, que normalmente são mal construídas e disformes, com degraus diferentes e estreitos, e por muitas vezes muito íngremes. Os moradores do térreo têm livre acesso à rua, podem colocar a cadeira na porta de casa, aproveitar o espaço da rua, que logo vira um quintal.
E quem mora no meio?
Quem mora no meio convive com os barulhos vindos de cima e debaixo. Tem moradores do andar de cima passando na porta da sua casa (subindo escadas) falando alto. As paredes são finas e dá para escutar tudo, conversas, um copo quebrando, os programas de TV em canais diferentes... E quando os filhos adolescentes do seu vizinho adoram um estilo musical, mas o mesmo gosto não é compartilhado por você? A solução é aguentar.
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A população brasileira como um todo está habituada a viver para dentro da casa, o espírito familiar é a nossa unidade de referência no mundo e não espirito de comunidade, independente de nível ou classe social. Não pense que as pessoas bem nascidas e abastadas conseguem viver em condomínio e prezam pelo bem de todos! Para isso há o estatuto do condomínio, as multas e o papel do síndico que fazem valer a sua autoridade sempre que necessário.

Da mesma forma que a noção de público e privado se misturam nas favelas, assim também ocorre na cidade regular, não se enganem! É uma questão que vai muito além da condição socioeconômica e sim da ordem da estrutura social dos indivíduos, valores e práticas que se aprende e se reproduzem a todo instante ao longo de nossas vidas. E, para conviver com elas, ou aceita e vive-se de acordo, ou aceita e vive-se de acordo.
Fonte: http://mundodomarketing.com.br/blogs/diario-das-classes-c-d-e-e

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Objeto de desejo: Os grills que nunca uso

Postado por Hilaine Yaccoub - 18/04/2012 no Diário das classes C,D e E - Mundo do Marketing

"Engraçado como coisas fascinam e se tornam verdadeiros objetos de desejo. Durante um trabalho de campo realizado em um bairro popular onde morei por 8 meses com a finalidade de entender motivações que levam clientes da concessionária de energia elétrica a furtarem ou fraudarem o consumo de eletricidade tive contato próximo com várias famílias que pertenciam a minha vizinhança.

Meus vizinhos pertenciam à chamada “nova classe média”, faziam parte de uma espécie de elite local e eram reconhecidos como tal por outros moradores de outras áreas. Tinham carros, viajavam nos feriados (alguns inclusive para o exterior), estudavam em colégios particulares da região, frequentavam restaurantes, em sua maioria churrascarias e, mesmo podendo arcar com o consumo de energia elétrica, furtavam (ou fraudavam o medidor de consumo).

Em outro momento tocarei mais enfaticamente na questão do furto e fraude de energia, bem como na questão da chamada nova classe média, no entanto, gostaria de focar nos usos dos objetos e o poder simbólico que exercem nas pessoas. Não, não pense que com você é diferente, os objetos mudam, mas o poder simbólico o fascínio são os mesmos.

Os GRILLs
Certa vez entrei na casa de uma vizinha, normalmente a gente entrava pela cozinha, pois eu já era considerada “de casa” e certamente era onde ela passava maior parte do seu tempo. Ao olhar para uma prateleira consegui avistar 5 grills com diferentes formatos, cores e, após eu perguntar, segundo a resposta dada pela mesma, cada um serviria para um propósito diferente.

grill,diário,classe c,d,e- Nossa, quantos grills! Pra que tantos? - perguntei alarmada.
- Ué, cada um serve pra uma coisa, oras! - respondeu demonstrando obviedade.
- Ah é? - retruquei - Como assim, me explica? - Estava louca para entender os padrões que ela utilizou.
- Esse aqui é só pra carne (apontou um George Foreman), ao lado, o branco redondo é pra pizza (Grill do Shoptime), aquele outro ali é só pra torrada, depois é o de sanduiche, e por final aquele ali que serve pra peixe e frango (um Black&Decker qualquer).
Diante da explicação dela, parei para pensar que dependendo do grupo ao qual você pertença e o capital cultural que você acumule, os objetos serão vistos, usados e tratados de diferentes formas. Ela aprendeu possivelmente na propaganda, que para cada grill daquele haveria uma serventia, portanto, ela precisava de vários grills para que suas diferentes necessidades fossem sanadas. Sendo que ela poderia ter apenas o redondo (de pizza) para fazer todos e mais outros tantos quitutes que ela desejasse. Mas ela não aprendeu dessa forma, portanto, reproduzia o que tinha vista no comercial.

Logo depois de me dar a explicação, a minha vizinha complementa o raciocínio com um “que” de tristeza e diz:
- Mas apesar de eu ter esses grills eu NUNCA uso eles não. Puxa muita luz porque é resistência. É melhor continuar usando o fogão mesmo porque é a gás e sai mais barato.


(ELA SÓ SE DEU CONTA DISSO DEPOIS DE ACUMULAR 5 GRILLS)
O que percebi em meu trabalho de campo é que ao adquirir um bem os consumidores não pensam no gasto agregado. Pensam apenas no valor da parcela, mas não colocam na ponta do lápis os custos finais que o novo objeto de desejo (carros, TVs, boillers, grills etc) vão acarretar.

Para tal há três saídas no âmbito do consumo de energia elétrica: ou pagam a conta, ou deixam de usar o objeto, ou fazem “gato” de energia para adequar a conta ao novo padrão e estilo de vida."

terça-feira, 17 de abril de 2012

A velha classe média x a nova classe média: disputa a vista ou apenas um preconceito isolado do Xexeu?

COLUNA DA REVISTA O GLOBO (15/4/2012)

Sobre a classe média

Não gosto de axé. Nem de pagode. Nem mesmo de sertanejo universitário. Por isso, não custa nada perguntar: dá para tocar outra coisa?

Como qualquer brasileiro, me orgulho muito da nova classe média e dos oito milhões de conterrâneos que chegaram à sociedade de consumo nos últimos tempos. Consumo para todos! Mas, veja bem, para todos, o que inclui a velha classe média. É democrático o fato de voos comerciais poderem ser pagos em 17 vezes. Mais gente viajando, mais gente fazendo turismo, nem me incomodo com os aeroportos superlotados. Mas, vem cá, dá para variar o cardápio? Ou vou ser obrigado a comer barrinha de cereal para o resto da vida? Alguém já perguntou se a velha classe média gosta de barrinha de cereal? Eu não gosto. Dá pra sair um sanduíche de queijo com suco de laranja?

Pela primeira vez na história deste país, a classe média representa mais da metade da população. Foi preciso a ascensão da classe C para que isso acontecesse. Políticas de pleno emprego, aumento de salário, facilitação do crédito, projetos sociais _ tudo deve ser saudado, mas, por favor, pensem no trauma que vem sofrendo a velha classe média. Cresci aprendendo que profissão para valer era engenheiro, médico ou advogado. Se o sujeito não tivesse aptidão para uma dessas três categorias, tentava um concurso para o Banco do Brasil ou para a Caixa Econômica. Agora, todos gritam no meu ouvido: empreendedorismo! O certo seria ter aberto um salão de beleza, um serviço de comida pronta, uma padaria... Tarde demais! Ensinaram-me a fechar o mês sem contas a pagar. Agora, o governo me alicia: Crédito! Crédito! Crédito! E eu não quero comprar uma TV de plasma, nem um segundo telefone celular, nem quero passar férias em Porto Seguro. Na verdade, estou pensando em vender o meu freezer, o meu forno de microondas e a minha secretária eletrônica. Tornei-me um estranho no ninho. Sou da velha classe média.

A nova classe média virou objeto de pesquisa de tudo aqui no Brasil. Tem marca de eletrônicos que produz aparelhos especialmente para os novos consumidores. A tal marca descobriu que “o consumidor da classe C ama música em alto volume. O lazer se concentra nos churrascos de fim de semana, onde ocorre a confraternização. O aparelho de som é o elo entre os familiares e os amigos. Nasceu assim o primeiro minisystem para a classe C, cuja caixa de som tem potência três vezes superior à de um aparelho de som comum.” Tá puxado.

Sejam bem-vindos ao paraíso os que ganham entre R$ 1.200 e R$ 5.174 por ano. Mas tem que ter lugar para todo o mundo. Eu quero de volta o meu filme legendado na TV e torço pela possibilidade de passar um intervalo comercial inteirinho sem assistir a um anúncio do Supermarket. Onde foi parar a televisão da velha classe média? Sempre fui noveleiro, nunca tive vergonha disso. Assisti às novelas de Ivany Ribeiro em versão original. Mas não aguento mais tramas ambientadas na comunidade, sambão na trilha sonora, mocinha cozinheira e galã jogador de futebol. Eu quero de volta a minha novela de Gilberto Braga!

(grifo meu)

Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/posts/2012/04/13/sobre-classe-media-440203.asp

segunda-feira, 16 de abril de 2012

DICA: Curso sobre consumo em SP

OS SABERES DO CONSUMO
Um olhar antropológico sobre o ato de consumir e sobre a sociedade de consumo

Vários
Você já se perguntou sobre todos os significados que envolvem um ato tão corriqueiro como o do consumo? Já parou para pensar que esta é uma atividade que está presente em toda e qualquer sociedade humana? Consegue vislumbrar o importante papel que o consumo desempenha sobre os indivíduos?

A partir do olhar da antropologia, o curso trará reflexões sobre os diversos significados que envolvem a prática do consumo. Será feita uma análise inicial sobre as origens históricas da sociedade de consumo e sobre o papel da cultura material até os dias de hoje. O curso abordará a questão do consumo como um elemento significativo na construção das identidades individuais contemporâneas. E também irá refletir como as marcas e a comunicação atuam como sistemas de representação, definindo práticas e comportamentos na nossa sociedade. Assim, ao tratar deste tema sobre a vertente da antropologia, é possível tomar o consumo como base para compreender diversos processos sociais e culturais contemporâneos.

Ao final do curso será oferecido o material com o conteúdo das aulas.


Início: 18 ABR
Duração: 6 encontros semanais
Dias/horários: Quartas-Feiras, às 20h (18/04, 25/04, 02/05, 09/05, 16/05, 23/05)
Valor: R$ 225,00 na inscrição + 3 parcelas de R$ 225,00
Observações: das 20h às 22h






Tel.: (11) 3707-8900

Horário de funcionamento: 09h às 22h

E-mail:
info@casadosaber.com.br
18 ABR | 1. Consumismo: afinal, sobre o que estamos falando?
Lívia Barbosa


25 ABR | 2. Compro, logo sou
Lívia Barbosa


02 MAI | 3. Representações do consumo
Carla Barros


09 MAI | 4. Consumo, marcas e comunicação
Carolina Roxo Nobre Barreira


16 MAI | 5. Consumo e modismos: quebrando preconceitos
Paula Pinto e Silva


23 MAI | 6. O consumo na prática: estudos aplicados e inovação
Paula Pinto e Silva

Lívia Barbosa. Pós-doutora pela Universidade de Tóquio, doutora em Antropologia Social pelo PPGAS da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em ciências Sociais pela Universidade de Chicago, Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade do Estado da Guanabara, Bacharel em Museologia pela Universidade do Brasil. Foi visiting scholar na Universidade de Notre Dame, EUA, e na Universidade de Tork, Reino Unido. Atualmente é Diretora de Pesquisa do Centro de Altos Estudos da ESPM e Profa. Associada da Universidade Federal Fluminense. É autora de vários livros e artigos, nacionais e estrangeiros, entre os quais se destacam “O Jeitinho Brasileiro ou a Arte de ser mais Igual que os Outros”, “Igualdade e Meritocracia”, "Cultura, Consumo e Identidade", "Sociedade de Consumo", “Cultura e Empresas” e “Cultura e Diferença nas Organizações”.

Carla Barros. Doutora em Administração pelo Instituto COPPEAD-UFRJ, especializada em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ e formada em Ciências Sociais com concentração em Antropologia Social pelo IFCS-UFRJ. Professora do Departamento de Estudos de Mídia da UFF, da ESPM-RJ e do Instituto COPPEAD-UFRJ, neste último como professora convidada. Atua em atividades de pesquisa, ensino e consultoria em organizações nas áreas de Antropologia do Consumo, Comportamento do Consumidor e RH Estratégico. Autora de diversos artigos sobre Antropologia do Consumo, Marketing e Comportamento do Consumidor, publicados em livros e apresentados em eventos acadêmicos. Tem realizado, em especial, pesquisas antropológicas nas áreas de consumo nas camadas populares, consumo de tecnologias e difusão de hábitos de consumo entre classes sociais.

Carolina Roxo Nobre Barreira. Mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e Bacharel em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, com especialização em Marketing. Atua há 21 anos na área de planejamento estratégico de comunicação e pesquisa de mercado, tendo trabalhado no instituto de pesquisa Research International e em grandes agências como DM9, Y&R (Brasil e França), DPZ, Dentsu e Loducca. Atualmente é Sócia Diretora da Roxo Atelier de Marcas & Antropologia, empresa de consultoria em marcas e planejamento estratégico que trabalha a partir do olhar interpretativo e profundo da Antropologia.

Paula Pinto e Silva. Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Seus trabalhos acadêmicos giram em torno das relações entre a Antropologia e Alimentação, tratando também de temas relacionados à História da culinária e da cozinha no Brasil. É autora do livro “Farinha, feijão e carne seca. Um tripé culinário no Brasil colonial” (vencedor do prêmio Gourmand World Cookbook Awards 2005) e organizadora do livro “Arte de Cozinha de Domingos Rodrigues (1680)”. Profissionalmente vem realizando pesquisas que analisam o vínculo entre a Antropologia e a temática do Consumo, desenvolvendo trabalhos para empresas e agências de publicidade. É professora de Antropologia na Escola Superior de Propaganda e Marketing.