sábado, 1 de dezembro de 2012
Barateamento de celulares e câmeras revoluciona forma como classes C, D e E registram dia a dia
RIO — Um passado sem rosto e sem rastro transformou a figura da mãe numa pálida lembrança. E levou consigo a imagem da menina Camila, ex-moradora de rua, sem deixar na adulta a certeza de como era quando criança. Com a morte da mãe no parto do oitavo irmão, há nove anos, depois de peregrinar com os sete irmãos pelas ruas de diversos bairros do Rio, ela ganhou uma casa. Foi morar com a tia, em Duque de Caxias. Cada irmão seguiu para viver com um parente.
A história da família Gomes, até a geração de Camila Claudia, hoje com 21 anos, é apenas oral. Não há um único registro fotográfico dessa vida nômade. Nem fotos, nem documentos. Camila não tem certidão de nascimento, o que impede o acesso aos direitos mais elementares. E não se lembra de ter visto fotos da mãe.
Uma aflição latente ficou de herança. Os nascimentos de Camille, de 2 anos, e Sofia, de 5 meses, trouxeram um novo desejo à vida da menina sem foto. Há pouco menos de dois anos, ela comprou um celular com câmera, exclusivamente para fotografar a primeira filha.
Camila tem a chance agora de deixar impressa sua passagem pelo mundo. Ela ilustra farta variedade de estatísticas que apontam para o consumo crescente de celulares e câmeras digitais no país, instrumentos também de inclusão. Nos últimos três anos, o item de consumo que mais cresceu no Brasil foi a câmera digital (de 20% para 35%), indicam dados da consultoria Kantar Worldpanel, divulgados em setembro. Um estudo da Fecomércio do ano passado mostra que, de 2003 a 2009, o gasto com celular já havia aumentado 63,6% em todas as classes sociais. Na E, chegou a 312%. Soma-se a estes um outro dado, e a equação se completa: cerca de 66% dos brasileiros usam o celular para tirar fotografias, segundo pesquisa do Instituto Data Popular colhida este ano.
A democratização do acesso se consolidou, confirma a assessora econômica da Fecomércio-SP, Kelly Carvalho. A oferta maior de crédito, a ascensão das classes C, D e E, e a popularização irreversível da internet são agentes dessa revolução nos costumes:
— Hoje é quase impossível imaginar alguém que não tenha acesso a isso.
A antropóloga Hilaine Yaccoub, uma das autoras do blog Consumoteca, que analisa hábitos de consumo das classes C, D e E, atesta que estamos diante de novos tempos, moldados pela democratização do acesso ao registro de imagens. Tempos em que as classes populares deixaram de ser apenas o objeto fotografado (e, mesmo assim, discretamente) e tornaram-se também agentes desse universo pictórico: são produtores, em escala crescente, de imagens de seu cotidiano.
— A história oral da vida das famílias passa a ter um registro. As fotografias são uma narrativa, uma forma de contar a própria vida. Sempre quem tirava as fotos era gente de fora desse grupo social mais popular. Agora são eles falando e retratando a si mesmos. Antes, o processo era mais caro e mais complexo. Agora, é uma possibilidade de registros de descobertas. Muitas dessas descobertas são relacionadas a consumo, sabores, viagens — ressalta Hilaine.
Esse registro cotidiano era impensável em outros tempos. Antes da fotografia, no século XIX, apenas os muito ricos conseguiam pagar pelo registro, em pintura, de seus retratos.
— O homem comum não tinha esse acesso. Quando a fotografia surgiu, foi a oportunidade de a burguesia emergente ter acesso a um tipo de imagem de si mesmo que até então só a aristocracia fazia — narra o pesquisador e fotógrafo Pedro Karp Vasquez.
Enquanto comprava o celular, a prestação, Camila Claudia buscava um jeito de se registrar formalmente. Chegou a procurar em quatro cartórios de Duque de Caxias, sem o menor indício do lugar onde nascera. Ela diz que sabe seu nome porque a tia assim contou. Mas não consegue provar sua existência em nenhuma instância oficial. Enfrentou seu maior drama quando Camille nasceu, numa maternidade em Caxias: foi impedida de sair do hospital, porque não tinha como registrar a filha. Conseguiu uma autorização provisória, mas teria que providenciar os documentos. Antes disso, deixou a cidade e mudou-se para um casebre de três cômodos, na Gamboa.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/tecnologia/barateamento-de-celulares-cameras-revoluciona-forma-como-classes-d-e-registram-dia-dia-6629781#ixzz2DsXoddru
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Para além do favela movie: o favelado-consumidor
Em um primeiro momento, a descoberta (ou redescoberta) da favela aconteceu por meio dos chamados favela´s movies, estilo do qual o primeiro grande exemplo foi o filme Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles. Um dos aspectos mais cristalizados – e, de certa forma, o mais discutível – de todo o debate provocado pela repercussão do estilo é a forma homogeneizadora de perceber o morador de favela. A abordagem do assunto é outro ponto de desconforto; eles, os favelados-vítimas; eles, os favelados-marginais; eles, os favelados que sujam, atrapalham e estragam a cidade.
É fundamental dizer que a acumulação do saber sobre “o outro” se dá a partir de uma interseção com sua vida, acumulando capital simbólico para entender seus valores, suas práticas e sua representatividade. Para entender esse “outro”, é necessário se abster de rigores, regras e critérios próprios para mergulhar nos regimes de valor de quem nos interessa estudar – nesse caso, as especificidades e particularidades das relações de consumo dos moradores de favelas.
Desse modo, da mesma forma como entendemos que o consumo se dá a partir da aquisição, é necessário entendermos não apenas o PDV e como essa relação se dá, mas também de que forma e por que motivo esse produto que está sendo mercantilizado, qual é sua eficiência ou perfeição; como são transformados, utilizados e customizados em um segundo momento. Em outras palavras, é preciso acompanhar uma biografia dos usos nas mãos dos consumidores que vão se formando, se estabelecendo e influenciando gerações, famílias e grupos sociais. Devemos perceber e observar as transformações que ocorrem com o produto, com sua forma de uso e, sobretudo, devemos observar como a relação que se inicia, como ela marca as pessoas e a sua história.
Atualmente, observamos uma grande miscelânea no trato dos temas que envolvem a favela e seus moradores. Por muitas vezes, são compartilhados dados muito superficiais, com estatísticas frias e sem cor. Ao abordar o Complexo da Maré no plano simbólico, Silva (2001) percebeu que a favela ganhou fama nos meios de comunicação pelos eventos de violência envolvendo disputas entre os grupos criminosos armados que brigam, faz tempo, pelos territórios locais para venda de drogas – e, também, contra a polícia. Nesse contexto, a representação dos cariocas sobre a Maré – e, especialmente, a favela de maneira geral – vem-se caracterizando somente como um espaço violento e destituído de condições dignas de vida. Em que pese o fato de ter generalizado um juízo preconceituoso sobre as populações das favelas, há, de concreto, nessas localidades, uma significativa diferenciação socioespacial que se verifica a partir da conformação desses residentes como sendo, em sua maioria, pessoas de origem nordestina, negras, com pouca escolaridade, sem qualificação profissional e, consequentemente, com nível de renda baixa. A grande questão é que essa é uma visão limitada desse contexto.
Em nossos dias, o contexto da favela começa a ser desconstruído com a entrada das UPPs. Esse movimento é o abre-alas para jornalistas, empresas e agências que olham com olhos de curiosidade e cobiça para esse mercado consumidor – os favelados que compram (e se endividam). As inserções estão sendo feitas, mas que critérios são utilizados? Será que há, de fato, um acompanhamento dessa biografia dos usos, dos regimes de valores e de tudo o que permita que se tenha legitimidade para falar por eles, aos favelados-consumidores? Mais uma vez a história se repete e vemos uma série de novos especialistas que entram na favela, fazem meia dúzia de fotografias, conversam com uma dezena de moradores e saem dali encantados com o novo mundo… e viva o estereótipo e a rotulação! A imagem do morador de favela continua homogeneizada. A diferença é que essa imagem não é mais a de vítima, mas a de novo consumidor ávido por novos produtos e serviços, que serão desenvolvidos, criados e customizados para eles. Mas quem são esses favelados-consumidores?
Assim como Silva (2001), Valla (1986) aponta a existência de diferentes identidades e rendas dentro da mesma favela. Desse modo, perceber o favelado como uma figura única (homogênea) – ou criminosa, ou dotada de carências absolutas, ou dona de um gosto ou desejo único – é, no mínimo, estigmatizante e ingênuo. Pesquisas recentes[1] apontam o crescimento da renda das classes mais baixas, chamadas de classes populares. Muitos indivíduos tiveram seus patrimônios aumentados devido ao Plano Real e à possibilidade de compras parceladas.
Ao pesquisar políticas de remoção no Rio de Janeiro, Valladares (2005) aponta:
“É vigente a imagem estigmatizada do favelado qualificado como parasita do Estado, marginal, que precisa ser eliminado do espaço em que encontra e replantado em outras áreas distantes, não visíveis. Enfatiza-se a favela enquanto aglomerado que “atrapalha” o dia-a-dia da classe média [...]”.
Ainda somaria a esta colocação o fato de esses grupos de camadas populares pertencentes às favelas serem acusados de consumirem energia elétrica sem pagar e de fazerem “gatos” de todos os outros serviços – TV a cabo, internet, água, etc. Ou seja, sempre há moralidades e restrições. Novamente estamos diante do bom consumidor favelado, aquele que paga as suas contas ou que tem desejo de pagar e o do mau consumidor favelado, o marginalizado que compra a TV de LCD e não paga suas contas; um grave erro e problema da sociedade de consumo, desvios e rotas que não estavam no contexto das relações mercantis.
Para além de critérios classificatórios, é necessário viver essa experiência. Por conta disso, realizo meu trabalho de campo em uma favela carioca como uma moradora, consumidora… uma pseudofavelada, sim, mas com olhos e critérios valorativos abertos e flexíveis para entender como as práticas e relações se dão para além do PDV.
É nessa jornada de entendimento do outro, seja ele favelado ou não, que a Antropologia segue contribuindo com seu método e com sua interpretação. Inspirando interessados nesse mergulho em outras realidades, outras crenças, outros regimes e outras práticas, em um fazer etnográfico pautado no esforço da compreensão de um mundo nem pior, nem melhor, apenas diferente do seu.
Hilaine Yaccoub
[1] Como a pesquisa realizada pela FGV, ver NERI, Marcelo (coord). A nova classe média. Rio de Janeiro, FGV/IBRE, CPS, 2008.
Referências:
SILVA, Jailson de Sousa A Pluralidade de Identidades no Bairro Maré – Rio de Janeiro. Revista GEOgraphia, vol. 3, no 5, 2001. Disponível aqui. Acesso em 20 abr. 2010.
VALLA, Victor V. (Org.). Educação e Favela: políticas para as favelas do Rio de Janeiro, 1940-1985. Petrópolis/ RJ: Editora Vozes, 1986.
VALLADARES, Licia do Prado. A invenção da favela. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.
Texto originalmente publicado na CONSUMOTECA: http://www.consumoteca.com.br/consumo-popular/2012/11/09/para-alem-do-favela-movie-o-favelado-consumidor/
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Um ato de amor – O papel da mulher no consumo doméstico e familiar
Na pesquisa realizada durante o mestrado (Yaccoub, 2010) ao explorar algumas considerações, no cerne da questão o consumo de energia elétrica, julguei relevante dedicar parte do trabalho à análise do consumo doméstico como parte fundamental da cultura material e da sociedade contemporânea, mas, sobretudo para meus interlocutores, o que ficou bastante evidenciado durante o trabalho de campo. Para eles a realização da ligação clandestina, ou manipulação do registro de consumo de energia, era uma forma de adequação da conta ao seu novo estilo de vida.
A partir da compra de eletrodomésticos e eletroeletrônicos facilitados pela nova política econômica, que possibilitou acesso facilitado ao crédito e parcelamentos, passaram a comprar mais (e ligar todos os fios nas tomadas) e, consequentemente, suas contas e gastos aumentaram. Os, até então, denominados “pobres”, muito referenciados sob a égide da carência material, escassez, luta pela sobrevivencia, entre outros (Sarti, 2003) receberam outra categoria e classificação e também passaram a galgar uma espécie de pertencimento a outro status social, este mais valorizado, mais prestiagiado, símbolo de conforto e status.
Ao me relacionar com o grupo e adentrar em suas casas, percebi que o consumo tem um papel central para este grupo. Através da aquisição de determinados objetos, esses indivíduos se sentiam incluídos e poderosos, pois com o consumo conquistavam status, valor simbólico e prestígio. Dentro desse contexto, a mulher possui um papel fundamental no campo do consumo doméstico. É ela quem traz para si a função de ofertar conforto e sensação de bem-estar para sua família, dar tudo para os seus filhos é uma meta, ou dever (muito mais que um direito). Proporcionar conforto está especialmente relacionado à posse de eletroeletrônicos, ou seja, diretamente ligada à demonstração de amor, uma vez que comprar é um ato de amor e é moralmente aceito (Miller, 2002).
Consumo, para a família, é comprar eletroeletrônicos e bens de uso comum, pois isso é moralmente aceito e está relacionado a uma espécie de obrigação, que está introjetada na sociedade. No zelar pela família, o ato de comprar é uma ação que não se finda em si, é um sacrifício devocional, de amor. Há uma obrigação intrínseca de dar aos filhos aquilo que merecem: o melhor. Tanto que a entrevistada se coloca abaixo de sua família ao dizer que, para si mesma, comprou um único vestido barato, mas considera itens básicos os bens eletroeletrônicos que compra para a família. Para ela, toda casa “tem que ter” esses itens para conferir o mínimo de conforto.
O autor aponta que “o ato de comprar é visto como um meio de descobrir, mediante observação acurada das práticas das pessoas, algo sobre seus relacionamentos.” (Miller, 2002, p.19). Para ele, essa “obrigação” ou desejo de oferecer o melhor para a família está intimamente ligada à noção de uma demonstração de amor, ou, como ele mesmo menciona, “um ato de amor”, por isso os indivíduos se sacrificam. Numa situação de escassez, onde o dinheiro é contado, a escolha de um determinado bem, significa no não consumo de outro. Escolher bens duráveis que trarão conforto e bem-estar para a família é moralmente aceito, pois está se investindo na coletividade e não em um consumo individualizado.
Daniel Miller traduz através de sua pesquisa, onde acompanhou mulheres fazendo compras em supermercados, que elas são principais agentes do consumo como um ritual devocional. As estratégias utilizadas e os critérios de seleção de produtos são, na verdade, formas de expressão de amor. Ao comprar ela está levando pra casa o que considera o melhor naquele momento, o seu melhor. Assim, enquanto homens têm uma relação mais utilitarista para lidar com as compras, as mulheres usam esse ritual como formas de expressão de amor e devoção. A mulher devotada pela sua família que cuida da alimentação, limpeza da casa, compra os alimentos preferidos, e castiga marido e filhos ao não comprar determinados itens de suas preferências.
Assim, comprar é antes de qualquer coisa um ato de amor.
Referências:
MILLER, Daniel. Teoria das Compras: o que orienta as escolhas dos consumidores. São Paulo, Nobel, 2002.
SARTI, Cynthia Andersen, A Família como Espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. São Paulo, Cortez, 2003.
YACCOUB. Hilaine de Melo. Atirei o pau no “gato”. Uma análise sobre consumo e furto de energia elétrica (dos “novos consumidores”) em um bairro popular de São Gonçalo – RJ. Dissertação (Mestrado) em Antropologia – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Antropologia, Niterói, RJ, 2010.
Texto originalmente publicado em: http://www.consumoteca.com.br/consumo-feminino/2012/10/10/um-ato-de-amor-o-papel-da-mulher-no-consumo-domestico-e-familiar/
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
O último beijo
Uma grande e deliciosa descoberta numa quarta-feira chuvosa...
Por Robson Henriques
"Muitas vezes o paraíso e o inferno são o mesmo lugar.
Maridos que já acompanharam suas esposas em lojas de cosméticos sabem do que estou falando. Enquanto para elas é um paraíso experimentar todas as paletas de cores possíveis de batons Mac ou Shu Uemura, para eles é o inferno com ar condicionado.
Isso até o momento em que eles descobrem o preço de cada batom desses.
Nessa hora, se dão conta que o inferno tem sim subsolo e que tem um lugar reservado para eles perto do banheiro. Onde, por acaso, o ar condicionado quebrou.
Aí entramos na eterna discussão do que é supérfluo e do que é essencial.
Um conflito que nasce da percepção que cada um tem do mundo e do valor intrínseco das coisas. O delicado terreno do intangível.
O que é supérfluo para você pode ser essencial para mim.
Ou como já disse Oscar Wilde: dê-me o supérfluo que eu abro mão do essencial.
Quantas vezes já não vimos maridos criticando suas esposas por gostarem de novela? Não entendem porque elas acompanham fervorosamente, rindo, chorando, torcendo pela mocinha a cada capítulo.
E esses mesmos maridos não gritam, choram e acompanham fervorosamente as partidas de futebol de seus times pela TV?
Não é no fundo a mesma coisa?
O futebol não é a novela dos homens?
E a novela é não é o futebol das mulheres?
Entendam aqui que estou sendo propositalmente maniqueísta no exemplo acima, só a título de ilustração.
Mas… e o batom?
Assim como todos os outros aparatos da indústria cosmética e da moda, não são objetos de culto ao supérfluo, ao superficial, a frivolidade, a aparência?
Vou deixar a resposta a essa pergunta, ironicamente, para um militar: o Tenente-Coronel Mervin Willett Gonin.
Um herói da 2ª Guerra Mundial, que estava entre os primeiros soldados britânicos que em abril de 1945 libertaram os prisioneiros de Bergen-Belsen, um dos mais cruéis campos de extermínio nazista.
Reproduzo alguns trechos de seu diário, tentando ser o mais fiel possível ao contexto de seu relato.
“Não consigo dar nenhuma descrição adequada do campo de horror no qual os meus homens e eu tínhamos de passar o próximo mês das nossas vidas.
Corpos jaziam por todo o lado, alguns em montes enormes, algumas vezes jaziam sozinhos ou em pares onde tinham caído. Demorou algum tempo para se habituar a ver homens, mulheres e crianças a desfalecer enquanto passavam por eles e resistir ao impulso de ir ao seu auxílio.
Cada pessoa tinha de se habituar à ideia que um indivíduo não contava. Todos sabíamos que estavam morrendo quinhentas pessoas por dia e que outras quinhentas pessoas por dia iam morrer durante semanas até que algo que nós tivéssemos feito começasse a surtir o mínimo efeito.
Era, muito difícil ver uma criança asfixiando com difteria quando sabíamos que uma traqueotomia e alguns cuidados básicos estavam a caminho para salvar. Homens comendo vermes enquanto agarravam um pedaço de pão unicamente porque eles tinham de comer vermes para sobreviver e naquele momento pouca diferença sentiam. Uma mulher completamente nua lavava-se com sabão e com a água de um tanque onde os restos mortais de uma criança flutuavam.
Foi pouco tempo depois da vinda da Cruz Vermelha Britânica , embora possa não haver ligação, que uma grande quantidade de batom chegou. Isto não era nada do que nós homens queríamos, estávamos clamando por centenas e milhares de outras coisas e não sabíamos quem tinha pedido batom.
Só queria descobrir quem foi que o fez, foi uma ação de gênio, brilhantismo puro e inalterado. Creio que nada fez mais por estas prisioneiras que o batom. Mulheres jaziam nas camas sem lençóis ou camisolas mas com lábios escarlates. Víamos algumas mulheres vagando com nada mais que uma manta nos ombros, mas com lábios vermelho escarlate.
Vi uma mulher morta na mesa de autópsia que ainda agarrava o batom com as mãos. Finalmente alguém fez algo para tornar pessoas indivíduos novamente, elas eram alguém, não mais somente o número de identificação tatuado no braço. Finalmente elas podiam ter algum interesse na sua aparência.
Aquele batom começou a devolver-lhes a sua humanidade.”
Fonte: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/blog-do-management/2012/06/20/o-ultimo-beijo/
Por Robson Henriques
"Muitas vezes o paraíso e o inferno são o mesmo lugar.
Maridos que já acompanharam suas esposas em lojas de cosméticos sabem do que estou falando. Enquanto para elas é um paraíso experimentar todas as paletas de cores possíveis de batons Mac ou Shu Uemura, para eles é o inferno com ar condicionado.
Isso até o momento em que eles descobrem o preço de cada batom desses.
Nessa hora, se dão conta que o inferno tem sim subsolo e que tem um lugar reservado para eles perto do banheiro. Onde, por acaso, o ar condicionado quebrou.
Aí entramos na eterna discussão do que é supérfluo e do que é essencial.
Um conflito que nasce da percepção que cada um tem do mundo e do valor intrínseco das coisas. O delicado terreno do intangível.
O que é supérfluo para você pode ser essencial para mim.
Ou como já disse Oscar Wilde: dê-me o supérfluo que eu abro mão do essencial.
Quantas vezes já não vimos maridos criticando suas esposas por gostarem de novela? Não entendem porque elas acompanham fervorosamente, rindo, chorando, torcendo pela mocinha a cada capítulo.
E esses mesmos maridos não gritam, choram e acompanham fervorosamente as partidas de futebol de seus times pela TV?
Não é no fundo a mesma coisa?
O futebol não é a novela dos homens?
E a novela é não é o futebol das mulheres?
Entendam aqui que estou sendo propositalmente maniqueísta no exemplo acima, só a título de ilustração.
Mas… e o batom?
Assim como todos os outros aparatos da indústria cosmética e da moda, não são objetos de culto ao supérfluo, ao superficial, a frivolidade, a aparência?
Vou deixar a resposta a essa pergunta, ironicamente, para um militar: o Tenente-Coronel Mervin Willett Gonin.
Um herói da 2ª Guerra Mundial, que estava entre os primeiros soldados britânicos que em abril de 1945 libertaram os prisioneiros de Bergen-Belsen, um dos mais cruéis campos de extermínio nazista.
Reproduzo alguns trechos de seu diário, tentando ser o mais fiel possível ao contexto de seu relato.
“Não consigo dar nenhuma descrição adequada do campo de horror no qual os meus homens e eu tínhamos de passar o próximo mês das nossas vidas.
Corpos jaziam por todo o lado, alguns em montes enormes, algumas vezes jaziam sozinhos ou em pares onde tinham caído. Demorou algum tempo para se habituar a ver homens, mulheres e crianças a desfalecer enquanto passavam por eles e resistir ao impulso de ir ao seu auxílio.
Cada pessoa tinha de se habituar à ideia que um indivíduo não contava. Todos sabíamos que estavam morrendo quinhentas pessoas por dia e que outras quinhentas pessoas por dia iam morrer durante semanas até que algo que nós tivéssemos feito começasse a surtir o mínimo efeito.
Era, muito difícil ver uma criança asfixiando com difteria quando sabíamos que uma traqueotomia e alguns cuidados básicos estavam a caminho para salvar. Homens comendo vermes enquanto agarravam um pedaço de pão unicamente porque eles tinham de comer vermes para sobreviver e naquele momento pouca diferença sentiam. Uma mulher completamente nua lavava-se com sabão e com a água de um tanque onde os restos mortais de uma criança flutuavam.
Foi pouco tempo depois da vinda da Cruz Vermelha Britânica , embora possa não haver ligação, que uma grande quantidade de batom chegou. Isto não era nada do que nós homens queríamos, estávamos clamando por centenas e milhares de outras coisas e não sabíamos quem tinha pedido batom.
Só queria descobrir quem foi que o fez, foi uma ação de gênio, brilhantismo puro e inalterado. Creio que nada fez mais por estas prisioneiras que o batom. Mulheres jaziam nas camas sem lençóis ou camisolas mas com lábios escarlates. Víamos algumas mulheres vagando com nada mais que uma manta nos ombros, mas com lábios vermelho escarlate.
Vi uma mulher morta na mesa de autópsia que ainda agarrava o batom com as mãos. Finalmente alguém fez algo para tornar pessoas indivíduos novamente, elas eram alguém, não mais somente o número de identificação tatuado no braço. Finalmente elas podiam ter algum interesse na sua aparência.
Aquele batom começou a devolver-lhes a sua humanidade.”
Fonte: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/blog-do-management/2012/06/20/o-ultimo-beijo/
domingo, 16 de setembro de 2012
A bandalha do acostamento
A antropóloga e policial rodoviária Marisa Dreys contribui com seu olhar para tratar de um assunto preocupante em nossa sociedade.
Matéria de RUTH DE AQUINO
"No último feriadão, o Brasil comemorou sua independência. Na volta de Búzios para o Rio de Janeiro, ao ver centenas de motoristas no acostamento, me perguntei quando comemoraremos nossa independência de marginais ao volante. Fotografei dezenas na Via Lagos (estadual) e na BR-101 (federal). Algumas fotos estão aqui. Enviei à Polícia Rodoviária Federal e ao Batalhão Rodoviário da PM. Transitar pelo acostamento é infração gravíssima. A multa é de R$ 574,62 e são 7 os pontos perdidos na carteira. Você pode ser multado várias vezes na mesma estrada e no mesmo dia.
Os bandalheiros são marginais porque têm consciência de que violam os direitos do outro no espaço público. Estão à margem da estrada e da lei. Além de piorar o engarrafamento, põem em risco sua vida, a de sua família e a de quem estiver no acostamento por direito: ciclistas, carros enguiçados, gente trocando o pneu, moradores locais.
Aí vai uma seleção de bandalheiros fotografados. O Fiat Uno de Petrópolis (RJ), placa GWB-0677, faz propaganda da vereadora Eliane Macharoto com slogan: “Educação e compromisso”. Compromisso com a ilegalidade. O Toyota Hilux de Ribeirão Preto (SP), placa EPS-7321, anuncia: “Deus é fiel”. O Nissan do Rio de Janeiro (RJ), placa LPH-7255, e o Hyundai de Barbacena (MG), placa HNL-6216, pressionam uma carreta. O Honda Civic do Rio de Janeiro (RJ), placa LOT-2674, é de eleitor consciente: “Eu não vendo meu voto”. Mas vende a consciência.
+Fotos: carros fotografados pela colunista trafegando no acostamento no feriadão
“Nos feriadões de turismo familiar, a infração campeoníssima nas estradas é acostamento”, afirma Marisa Dreys, chefe da Comunicação da PRF no Rio. “No último, 80% dos 1.600 autos de infração na BR-101 foram tráfego no acostamento e ultrapassagem indevida.” Havia ali, no domingo passado, 19 policiais, sete viaturas fixas, quatro motocicletas e um helicóptero, além dos carros extras de supervisão.
Formada em Direito, com mestrado em antropologia e tese sobre trânsito, Marisa passou 14 anos como policial rodoviária e colecionou histórias. Eis algumas: “O infrator diz: ‘Sou advogado’. Respondo: ‘Que bom, o senhor conhece a lei. Prazer, sou policial rodoviária federal’. O outro: ‘Mas vai me multar? Sou um cidadão de bem’. Um apela à classe: ‘Sou colega, funcionário público’. O defensor da hierarquia: ‘Mas não tem uma diferençazinha na lei para quem tem um carro melhor?’. Respondo: ‘Não, a lei é igual. No seu carro, a casa é de todos. É o espaço da rua, público’. E há as desculpas: ‘Entrei no acostamento porque várias pessoas tinham entrado e achei que não tinha problema. Os senhores me perdoam?’”.
Não, a gente não perdoa. Segundo Marisa, quando os policiais multam no acostamento, os motoristas aplaudem. E são a grande maioria. Na BR-101, passaram 90 mil veículos por dia no feriadão. Muito mais gente respeitou. Adoraríamos ver os bandalheiros apreendidos no ato – igual à Lei Seca. Perdeu. Larga o carro aí e volta de ônibus para casa. Queria ver se, no feriadão seguinte, ele transformaria o acostamento numa pista extra.
As reações dos motoristas a minha câmera variavam. O do Hyundai Tucson, placa KXZ-5685, de Saquarema (RJ), riu e fez o V de vitória. A mulher do Ford Fiesta, placa KVP-7141, de Duque de Caxias (RJ), freou no acostamento: “Você fotografou o MEU carro? Você é policial por acaso? Sua F. D. P.”. Saiu xingando. O copiloto levava uma criança no colo. Outra irregularidade.
Há tecnologia à disposição dos policiais. Câmeras, filmadoras e celulares. A nova Pistola Trucam funciona como um radar móvel e é capaz de multar 30 veículos por minuto a até 220 metros de distância. Não adianta querer um policial a cada 150 metros. É inviável. Eu, leiga, adorei os 120 cavaletes com um plástico “proibido trafegar”, colocados em 7 quilômetros da Via Lagos. Estava errada. O acostamento precisa estar livre. “Num Carnaval, um senhor tinha perdido um dedo, que estava no gelo, e corria num táxi para um reimplante no hospital, eu abri caminho com a patrulhinha”, diz Marisa.
É preciso educar, punir, fazer pressão social. A Via Lagos dá cursos sobre trânsito a professores dos cinco municípios cortados pela estrada. Em três anos, 15.550 crianças do 4o ano foram atendidas. Elas escrevem cartinhas distribuídas no pedágio para sensibilizar os motoristas.
No feriadão, houve 2.319 acidentes nas rodovias federais, com 110 mortos e 1.438 feridos. Números de guerra em tempo de festa. De janeiro a março de 2012, 10% dos atropelamentos nas estradas aconteceram no acostamento. Se você tem vergonha de furar fila de cinema porque reclamarão, pense: você se julga “ixperto”, protegido pelo vidro escuro, mas está sendo filmado. Ao furar fila na estrada, põe vidas em risco. Isso é coisa de marginal."
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Mente-aberta/ruth-de-aquino/noticia/2012/09/bandalha-do-acostamento.html
Matéria de RUTH DE AQUINO
"No último feriadão, o Brasil comemorou sua independência. Na volta de Búzios para o Rio de Janeiro, ao ver centenas de motoristas no acostamento, me perguntei quando comemoraremos nossa independência de marginais ao volante. Fotografei dezenas na Via Lagos (estadual) e na BR-101 (federal). Algumas fotos estão aqui. Enviei à Polícia Rodoviária Federal e ao Batalhão Rodoviário da PM. Transitar pelo acostamento é infração gravíssima. A multa é de R$ 574,62 e são 7 os pontos perdidos na carteira. Você pode ser multado várias vezes na mesma estrada e no mesmo dia.
Os bandalheiros são marginais porque têm consciência de que violam os direitos do outro no espaço público. Estão à margem da estrada e da lei. Além de piorar o engarrafamento, põem em risco sua vida, a de sua família e a de quem estiver no acostamento por direito: ciclistas, carros enguiçados, gente trocando o pneu, moradores locais.
Aí vai uma seleção de bandalheiros fotografados. O Fiat Uno de Petrópolis (RJ), placa GWB-0677, faz propaganda da vereadora Eliane Macharoto com slogan: “Educação e compromisso”. Compromisso com a ilegalidade. O Toyota Hilux de Ribeirão Preto (SP), placa EPS-7321, anuncia: “Deus é fiel”. O Nissan do Rio de Janeiro (RJ), placa LPH-7255, e o Hyundai de Barbacena (MG), placa HNL-6216, pressionam uma carreta. O Honda Civic do Rio de Janeiro (RJ), placa LOT-2674, é de eleitor consciente: “Eu não vendo meu voto”. Mas vende a consciência.
+Fotos: carros fotografados pela colunista trafegando no acostamento no feriadão
“Nos feriadões de turismo familiar, a infração campeoníssima nas estradas é acostamento”, afirma Marisa Dreys, chefe da Comunicação da PRF no Rio. “No último, 80% dos 1.600 autos de infração na BR-101 foram tráfego no acostamento e ultrapassagem indevida.” Havia ali, no domingo passado, 19 policiais, sete viaturas fixas, quatro motocicletas e um helicóptero, além dos carros extras de supervisão.
Quem fura fila na estrada se julga “ixperto”, mas põe vidas em risco. Isso é coisa de marginal
Não, a gente não perdoa. Segundo Marisa, quando os policiais multam no acostamento, os motoristas aplaudem. E são a grande maioria. Na BR-101, passaram 90 mil veículos por dia no feriadão. Muito mais gente respeitou. Adoraríamos ver os bandalheiros apreendidos no ato – igual à Lei Seca. Perdeu. Larga o carro aí e volta de ônibus para casa. Queria ver se, no feriadão seguinte, ele transformaria o acostamento numa pista extra.
As reações dos motoristas a minha câmera variavam. O do Hyundai Tucson, placa KXZ-5685, de Saquarema (RJ), riu e fez o V de vitória. A mulher do Ford Fiesta, placa KVP-7141, de Duque de Caxias (RJ), freou no acostamento: “Você fotografou o MEU carro? Você é policial por acaso? Sua F. D. P.”. Saiu xingando. O copiloto levava uma criança no colo. Outra irregularidade.
Há tecnologia à disposição dos policiais. Câmeras, filmadoras e celulares. A nova Pistola Trucam funciona como um radar móvel e é capaz de multar 30 veículos por minuto a até 220 metros de distância. Não adianta querer um policial a cada 150 metros. É inviável. Eu, leiga, adorei os 120 cavaletes com um plástico “proibido trafegar”, colocados em 7 quilômetros da Via Lagos. Estava errada. O acostamento precisa estar livre. “Num Carnaval, um senhor tinha perdido um dedo, que estava no gelo, e corria num táxi para um reimplante no hospital, eu abri caminho com a patrulhinha”, diz Marisa.
É preciso educar, punir, fazer pressão social. A Via Lagos dá cursos sobre trânsito a professores dos cinco municípios cortados pela estrada. Em três anos, 15.550 crianças do 4o ano foram atendidas. Elas escrevem cartinhas distribuídas no pedágio para sensibilizar os motoristas.
No feriadão, houve 2.319 acidentes nas rodovias federais, com 110 mortos e 1.438 feridos. Números de guerra em tempo de festa. De janeiro a março de 2012, 10% dos atropelamentos nas estradas aconteceram no acostamento. Se você tem vergonha de furar fila de cinema porque reclamarão, pense: você se julga “ixperto”, protegido pelo vidro escuro, mas está sendo filmado. Ao furar fila na estrada, põe vidas em risco. Isso é coisa de marginal."
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Mente-aberta/ruth-de-aquino/noticia/2012/09/bandalha-do-acostamento.html
Licença para pensar: o modo de ver a favela e seus moradores
Muitas
vezes, quando conto para as pessoas que meu trabalho de campo para tese de
doutorado está sendo realizado em uma favela
não pacificada percebo uma certa surpresa revelada em olhares,
interjeições que deflagram sustos, estranhamentos e medos. Logo depois exaltam
minha “coragem” (e um possível amor a profissão e pesquisa) e se indignam com
minha escolha. “Como você foi para lá? Não tinha outro lugar pra pesquisar? O
que os seus pais acham disso?”
Esse
questionamento e sentimentos oriundo dos outros me fazem lembrar do meu papel
de antropóloga e por sua vez tradutora de costumes e formas de expressões
socioculturais. Devo lembrar a todo instante que tamanho estranhamento vai além
de preconceitos. Na verdade o que se tem é um olhar exotizado que foi
construído e reproduzido ao longo de décadas e que tem sido reafirmado por
diferentes setores da nossa sociedade, desde a mídia até a política que assumem
planos e projetos que não condizem com o viver e pertencer a uma favela de
fato.
Cria-se
assim uma identidade de favelado, ligado à precariedade, malandragem, falta de
escolhas, marginalidade, carência, ausência de normas, cultura, regras sociais.
Esse imaginário acabou se sedimento em uma forma única de ver e julgar todo um
grupo de pessoas que são na realidade plurais, diferentes e heterogêneas. São
muitas favelas dentro da mesma favela, e dentro dessa lógica, são muitos tipos
de pessoas dentro de um mesmo grupo.
Falando
assim parece óbvio, mas não é o que percebemos na prática quando lemos os
jornais que nos dizem que os moradores de favela compram (e se endividam) todos
eletrodomésticos que podem nas Casas Bahia porque não pagam energia elétrica.
Pois
então, ao alugar uma casa na favela percebi que não é bem assim, eu tenho
“gato” de energia elétrica, de água e de Internet porque tentei contratar o
serviço regular e me foi negado. Eu, morando em uma favela não tenho o direito
de exercer minha cidadania de consumidora, pagar por um serviço. E ai
pergunta-se: Como viver sem energia, água e comunicação nos dias de hoje? Como
fazer?
Para
além dos “gatos” e gambiarras eu acesso os arranjos técnicos, dá-se um jeito
para fazer valer minha necessidade, meu interesse, minha vontade.
Muitos
podem discordar e dizer que se o serviço fosse regularizado mesmo assim muitos
moradores fariam as ligações clandestinas porque está no sangue, porque querem
vantagem, porque são assim, está na “cultura deles”.
Essas
justificativas são as que mais ouço quando trato desse assunto, e aí caímos
novamente em dois pontos cruciais: as pré-noções baseadas em histórias únicas
(sedimentadas e reproduzidas sem questionamentos) e na ideia de que a cultura
não muda, uma inverdade, costumo dizer nas minhas aulas que até um tempo atrás
quem usava mini saia eram as putas, hoje as filhas das classes médias fazem uso
da peça de vestuário de forma deliberada. Se a cultura não muda...então o que
é?
A
visão que se tem das favelas e seus moradores é um tanto simplista, única,
partidária e tendenciosa. Vivendo de perto e dividindo espaço com moradores da
favela tenho percebido outas nuances que estão guardados no campo do privado e
que de fato não fazem parte do conhecimento público.
O
conceito homogeneizador da favela
acaba sendo de fato uma armadilha para o entendimento do espaço, suas regras,
seu lugar social e mais, seus moradores-consumidores e suas formas de uso de
coisas, serviços e produtos.
Cada vez mais o consumidor
moderno tem ciência de seu poder de compra, e direito de escolha, empresas
devem tratá-lo com dignidade, respeito e sobretudo atenção, porque se não há
essa relação estabelecida ele simplesmente customiza, interfere, adapta para
que sua necessidade ou desejo sejam atendidos da forma como entendem ser a
ideal.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Observação in lócuo:quando o lugar é fonte de observação de práticas de consumo
Texto originalmente publicado no site www.consumote.com.br
A antropóloga Soraya Simões em sua tese sobre a Cruzada São Sebastião do Leblon, narra a necessidade do uso das ruas e da busca do bairro como espaço de observação e a importância do pesquisador estar lá, na condição de morador, neste caso, ajustando-se a dois papéis desempenhados por ele, antropólogo e vizinho, em que “sua vida pessoal se torna inextricavelmente misturada a pesquisa”.
Há para a antropologia o famoso e referencial caso do sociólogo Willian Foote-Whyte e sua experiência no início do século XX na Escola de Chicago, relatada no livro Sociedade de Esquina, quando morou em um bairro popular, que para ele seria imprescindível “praticar o bairro como o praticavam os membros do grupo da esquina.” É importante que o pesquisador use o bairro ou a favela, absorva seus costumes e suas regras sociais, uma vez que a organização da vida cotidiana se organiza, por meio de uma forma de “comportamento” que são as suas práticas.
“O usuário (do bairro) se torna parceiro de um contrato social que ele se obriga a respeitar para que seja possível a vida cotidiana… pode-se portanto apreender o bairro como esta porção do público em geral (anônimo, de todo mundo) em que se insinua pouco a pouco um espaço privado particularizado pelo fato do uso quase cotidiano desse espaço.” (Michel De Certau, A invenção do cotidiano, 2008, p.39-40)
As práticas comuns dos usuários do bairro se estabelecem graças à proximidade e coexistência concreta cotidiana de seus moradores, que são decisivas para a identidade dos próprios usuários ou grupos, na medida em que essa identidade lhe permite assumir o seu lugar na rede das relações sociais inscritas no ambiente.
Constitui-se, portanto, em uma abordagem bem diferente da empregada pelo pesquisador que, ao fazer incursões breves ou muito rápidas, não toma para si ou percebe as práticas, valores, hábitos, fazeres pertencentes àquele lugar, referenciais que ajudarão a entender práticas de consumo, escolhas, sonhos, desejos, etc.
No fim de minha empreitada, após oito meses morando em um bairro popular para a pesquisa de mestrado, eu já era vista como alguém “de dentro”, o que me possibilitou criar laços afetivos e também estabelecer relações de serviços. Essa percepção dos meus vizinhos abriu portas para que eu pudesse adentrar nas suas casas, observar seus modos de vida, suas escolhas de consumo, prioridade de compras, entre outros.
Estar lá é uma condição fundamental para entrar em contato com essas nuances comportamentais que só um pesquisador experiente poderá perceber e busca conquistar. Ao entrarmos no universo de nossos interlocutores fazemos parte de sua rede de contatos, de sociabilidade e acessamos informações do campo privado dificilmente disponível para “os de fora”, desconhecidos, sejam estes pesquisadores ou não.
Autora Hilaine Yaccoub
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