quinta-feira, 19 de novembro de 2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dica de leitura


Dica de Leitura


Caros, fica aí a dica de leitura para quem se interessa por história, moda e design.


sábado, 26 de setembro de 2009

A Felicidade Paradoxal de Gilles Lipovetsky

Lipovetsky (2007) acredita que se as compras não são sinônimos de felicidade, no entanto não deixam de ser, muitas vezes, fontes de reais satisfações ao que chama de hiperconsumidor.

Assim, cria-se uma situação a qual o autor chamou de “felicidade paradoxal”, sendo esta efêmera, que se finda ao término do próprio consumo.

Importante ressaltar que, mesmo com algumas diferenças em suas principais idéias, o consumidor nunca estará satisfeito e sempre buscará novos produtos, experiências e recomeços.

(Os consumidores não buscam apenas produtos, mas experiências, emoções, sensações)


A sociedade de hiperconsumo de Lipovetsky – está envolvida em uma dinâmica social
estruturada na compra dos mais diversos produtos: celulares, televisores cada vez mais sofisticados, computadores de última geração, utensílios de cozinha que nos poupam das mais diversas atividades, como fazer um café ou um suco, música e livro para se levar no bolso, equipamentos que aos poucos vão se tornando parte essencial de nossa rotina.


O que realmente precisamos?


Lipovetsky (2007) afirma existir mais um tipo de sociedade, onde:

a) Fase I se inicia por volta de 1880 e chega ao fim com a Segunda Guerra
Mundial.



Neste período, o comércio pôde se desenvolver em grande escala, devido às modernas infraestruturas de transporte e comunicação, que possibilitaram o aumento da regularidade, volume e velocidade nos transportes para fábricas e cidades.

A elaboração de máquinas de fabricação contínua fez com que a produtividade aumentasse e, ao mesmo tempo, custos diminuíssem. Além disso, a reestruturação de fábricas através do modelo de linha de montagem móvel, produtos eram elaborados com maior rapidez.

Entretanto, vender tantos produtos necessitaria uma nova abordagem junto aos consumidores e, assim, o marketing tornou-se inseparável da economia de consumo.

Produtos que, anteriormente a esse período, eram vendidos a granel, muitos de maneira anônima, são substituídos por outros, com marca. Nesta fase o consumidor tradicional transforma-se no consumidor moderno, que procura as marcas e é seduzido pela publicidade.

Para complementar a transformação do consumidor, os grandes magazines4 são implantados, em diversas partes do mundo, e estes passam a não apenas venderem mercadorias, mas estimula a necessidade do consumo, pelas novidades e pela moda.

Observar suas grandes vitrines seduzia e distraia o consumidor, prática da qual somos
herdeiros atualmente;


b) Fase II, direcionada principalmente pela marcante economia fordista, se
estabeleceu em torno de 1950 e apresentou-se como modelo puro da sociedade do consumo de massa.


É nesse período que a estrutura de consumo se modifica profundamente, quando diversos produtos se tornam acessíveis a uma maior parcela da população, como televisores, eletrodomésticos e automóveis.

As massas tiveram acesso, neste período, a uma gama de bens materiais antes destinados, apenas, às elites sociais.

Nesta fase as estratégias de marketing se modificam e visam às diferentes camadas sociais e aspectos socioculturais. A circulação rápida de mercadorias se inicia e a obsolescência planejada instaura-se.

Desejos e anseios são sempre estimulados e a individualização do indivíduo, através da
compra, ganha forças;


c) Desde 1970, a sociedade se e encontra em um ciclo III do consumo, chamado pelo autor de sociedade do hiperconsumo.


Segundo Lipovetsky (2007), surge uma série de novos contornos para a aventura individualista e consumista das sociedades, onde tudo pode se tornar um segmento mercantil.

O autor afirma que vivemos hoje em uma civilização da “felicidade paradoxal” em que nossas sociedades são cada vez mais ricas, entretanto, um número crescente de pessoas vive na precariedade, e somos cada vez mais bem cuidados, mas decepções e inseguranças sociais aumentam incessantemente.

A fase do hiperconsumo (fase III) é principalmente emocional e subjetiva, quando os indivíduos desejam objetos para viverem e não por sua utilidade ou necessidade.

As mercadorias que são consumidas adquirem um novo perfil, não fornecem apenas o status, mas também oferecem um estilo de vida específico ao consumidor.

O consumo para “si” suplantou o consumo para o “outro”, em sintonia com o movimento de individualização das expectativas, gostos e comportamentos

Em um trabalho anterior, Lipovetsky (2002) afirma que o processo de racionalidades coletivas foi pulverizado e o processo de personalização foi promovido, abrindo caminho para a realização pessoal, para aspirações individuais – os indivíduos são ávidos por realizações imediatas, que podem ser encontradas nas mercadorias vendidas no mercado.

Esta nova relação entre pessoa e produto faz com que ocorra o que o autor chama de consumo emocional, em que são buscadas as sensações e um maior bem-estar subjetivo, instituindo no ato da compra o “sentir”

Neste sentido, as marcas ganham uma nova dimensão, quando o consumidor acredita que possui o direito de consumir um produto de qualidade.

E, muito mais que um objeto, um estilo de vida é comprado, para nos tornamos diferenciados, nos destacarmos da “massa cinzenta”.

A marca traduz uma apropriação pessoal, uma busca da individualização assim como um desejo de se integrar em determinados grupos (LIPOVETSKY, 2007).

O hiperconsumo, de certa forma, adquiriu tentáculos que se entendem às mais diversas áreas, como a saúde, o lazer e o turismo. Nesta terceira fase do consumo, a insegurança e a ansiedade cotidiana crescem na mesma proporção de nosso poder de combater a fatalidade e alongar a duração da vida (LIPOVETSKY, 2007).

Os hiperconsumidores, possuidores do desejo constante de alcançar o bem-estar, são sempre levados à insegurança e ao medo, e utilizam o consumo como um meio de driblar e vencer o envelhecimento, as tristezas e decepções.

Existe toda uma indústria de sensações, situações pré-moldadas à disposição do hiperconsumidor, onde são vendidas experiências previamente estipuladas. É nesta
constante dualidade que o autor baseia grande parte de seu estudo: toda uma dimensão hedonística a um indivíduo individualista e inseguro, que firma sua identidade pela compra.

Um fator importante da sociedade de hiperconsumo contextualizada por Lipovetsky (2007) é a chamada febre da mudança perpétua, quando as necessidades básicas já estão satisfeitas e busca-se o prazer renovado, a novidade, juntamente a um mercado que não pára de inovar.

A rapidez do mercado se une a obsolescência dos produtos, aumentando invariavelmente o descarte acelerado.

Outro ponto importante a ser destacado na sociedade hiperconsumidora é a modificação ocorrida na escolha do consumidor, que passa a ser chamada de hiperscolha, onde o consumidor passa a ter múltiplas possibilidades de escolhas, assim como o consumo individualista que se modificou para o hiperindividualista, pois as pessoas passam a se fechar cada vez mais em busca de sua satisfação pessoal.

Tais alterações, segundo Lipovetsky (2007), foram causadas pela disseminação dos multiequipamentos, por novos objetos eletrônicos, em que os indivíduos constroem seu próprio espaço-tempo, ditam sua própria rotina.

Não cabe aqui uma crítica às práticas diárias que foram facilitadas com a chegada de
equipamentos domésticos, por exemplo, mas sim uma crítica a um conjunto de fatores que levam o consumidor a realizar mais atividades e com mais rapidez, uma cultura da instantaneidade e da urgência.

Uma característica importante, presente em ambas as teorias, deve ser aqui ressaltada: a formação do indivíduo, que inclui sua personalidade, seus anseios, objetivos e estilos de vida, seja inserido em uma sociedade de consumidores, de Bauman, ou de hiperconsumo, de Lipovetsky, é moldada através do consumo.

A formação de sua identidade por esse meio faz com que esse seja essencialmente
individualista, com seus pensamentos voltados para o agora, para o instante em que se compra ou se vive determinada experiência.

Esse indivíduo está, em termos, fora da sociedade e está vivendo apenas seu mundo de consumo em particular, não se preocupando com os efeitos de seu estilo de vida.

Dentro deste contexto, como exigir que esse indivíduo (consumidor) pense na questão ambiental, em poupar recursos para as gerações futuras, aqui mais especificamente no uso racional da energia, se sua socialização ocorre pelo e para o consumo?

Segundo Lipovtsky (2007), todo mundo já está formado, educado, adaptado ao consumo ilimitado. O autor exalta a formação de um novo tipo de hiperconsumidor que age sob os auspícios do consumo correto, da despesa cidadã, ecológica e socialmente responsável, que consome guiado por valores éticos.

Surge, no ciclo III do consumo analisado pelo autor, o consumidor consciente, que acredita que suas ações podem resultar em resultados efetivamente positivos.

A fase III firma um tipo de consumidor que economiza energia, elimina os desperdícios
e cria a consciência dos efeitos negativos de nossos modos de vida sobre o meio ambiente. Entretanto, em um mercado hipersegmentado, a ecologia não constitui mais um contra poder à economia mercantil e funciona como instrumento de sua reciclagem, vetor de uma oferta mais respeitadora dos grandes equilíbrios da natureza (LIPOVETSKY, 2007).



LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre uma sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


Fonte:

Fournier, Anna Carolina Pires; Penteado, Cláudio Luis de Camargo. CONSUMO E ENERGIA: UMA VISÃO SOCIOLÓGICA, XIV Congresso Brasileiro de Sociologia, Rio de Janeiro, 2009.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Moda como Prática Cultural em Bourdieu

Considerando a moda como o gosto por qualquer manifestação ou prática de cultura. É capaz de expressar necessidades sociais e psicológicas; e oferece, simultaneamente, instrumentos que aproximam e distanciam os indivíduos.

De um lado, possibilita fechar em círculos os iguais; de outro, afasta os diferentes posicionando-os em espaços separados criando distinções

Se, de um lado, a moda oferece ao indivíduo um esquema que demonstra uma submissão ao comum, uma docilidade às normas de sua época, por outro, é uma das muitas formas que auxiliam os indivíduos a salvar sua intimidade e identidade ante os semelhantes (Simmel, 1988).


Dessa forma, a moda atua sobre as exterioridades, sobre as facetas de nossa vida orientadas para a sociedade. Completa a identidade social dos agentes.


A obediência à moda exprime um jogo entre os indivíduos e as forças socializadoras exteriores.


Da mesma forma que a aceitação de uma regra social oferece um amparo diante da variedade de opções oferecidas (movimento que corresponde à aproximação de um grupo – habitus grupal),
oferece também um espaço de projeção e de expressão de uma individualidade (movimento de afastamento do grupo – habitus individual), no uso particular e singularizado de um comportamento.


Para Bourdieu, a Sociologia é uma ciência que incomoda. Diferentemente da História, ou da Psicologia ou, ainda, da Filosofia, entre outras; a Sociologia, para ele, é uma ciência bastante contestada porque tende a interpretar os fenômenos sociais de maneira crítica.

Procura desvendar, interpelar ou questionar consensos há muito arraigados na experiência do cotidiano de cada um de nós.


A Sociologia deve aproveitar uma vasta herança acadêmica, deve se apoiar nas teorias sociais desenvolvidas pelos grandes pensadores das ciências humanas e deve ainda fazer uso de técnicas estatísticas e etnográficas, bem como deve se apropriar de procedimentos metodológicos sérios e vigilantes para se fortalecer enquanto ciência a serviço da humanidade

ex: A produção das pesquisas que originou o livro A Distinção

Para ele, a sociedade ocidental capitalista é uma sociedade hierarquizada, ou seja, uma sociedade organizada segundo uma divisão de poderes extremamente desigual

Para Bourdieu, a estrutura social é vista como um sistema hierarquizado de poder e de privilégio.

Poderes e privilégios determinados, tanto pelas relações materiais e/ou econômicas
(salário, renda), como pelas relações simbólicas (status) e/ou culturais (diplomas) entre os indivíduos.


A diferente localização dos grupos nessa estrutura social deriva da desigual distribuição de recursos e poderes de cada um de nós.

Por recursos ou poderes, Bourdieu entende mais especificamente:

· o capital econômico (renda, salários, imóveis),

· o capital cultural (saberes e conhecimentos reconhecidos por diplomas e títulos),

· o capital social (relações sociais que podem ser revertidas em capital, relações que podem ser capitalizadas)

· o capital simbólico (o que vulgarmente chamamos prestígio e/ou honra).


Assim, a posição de privilégio ou não privilégio ocupada por um grupo ou indivíduo no campo social é definida de acordo com o volume e a composição de um ou mais capitais adquiridos e ou incorporados ao longo de suas trajetórias sociais.





Setton,Maria da Graça. A moda como prática cultural em Pierre Bourdieu. Revista Iara, vol 1, n 1, 2008.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O que é ter estilo?

No mundo contemporâneo ouve-se muito a expressão "ter estilo". No mundo da moda "ter estilo" é ser qualificado esteticamente para criar, customizar, desenvolver looks diferenciados.

O conceito tem sido usado no mundo da moda para se referir a uma qualidade pessoal, única e intransferível, ligada a personalidade e à atitude de homens e mulheres. Segundo Sabino(2007), vender estilo ou possuir estilo passou a ser uma obsessão de fashionistas e profissionais do setor desde meados dos anos 80.

possuir estilo é conhecer-se a si mesmo

(chamada de uma matéria do Caderno B do JB em 1987)

Estilo pode designar um conjunto de elementos que caracterizam uma determinada expressão ou época, tanto na moda quanto na arquitetura e decoração.



No dicionário Michaelis encontramos o seguinte:

"Feição especial, caráter de uma produção artística de certa época ou certo povo. Hábito, prática, praxe, costume. Maneira especial de exprimir os pensamentos, falando ou escrevendo. Maneira de dizer, escrever, compor, pintar ou de esculpir de cada um"



MODA e ESTILO


Moda conjuga recepção e produção, essa última não está somente ligada a produção do estilista, mas também refere-se a atuação que está presente na própria dinâmica do consumo contemporâneo, no qual o consumidor é seu próprio estilista.

Ao acentuar a relação entre o artista e a sua arte, o autor ilumina o fato de que, ao produzir, o autor produz também o seu modo de produzir, no caso, o seu estilo, em um diálogo constante com a matéria prima, ele cria a sua marca, e no caso da moda, a sua identidade visual.

Acaba por assim criar a sua artisticidade, uma vez que é preciso uma qualidade artística para sua realização.

O artista desce do pedestal da pura inventividade e assume também a condição de padecimento, ao se deixar conduzir pela obra (ele se condiciona por ela, ele cria amarras que vão prendê-lo a aquele estilo)

Podemos reconhecer uma certa dimensão de artisticidade em muitos empreendimentos tanto da Alta Costura como do prêt-à-porter, sem falar das customizações feitas pelo próprio usuário. Podemos identificar determinados estilistas através de suas criações, as saias Dior, ou as bolsas Chanel são exemplos disso.

O estilo como modo de formar:

- o próprio trabalho de cortar, moldar, desenhar já tem um caráter de artisticidade;
- o consumidor hoje tem a possibilidade de “produzir”, executar o seu próprio look;

Nesse cenário podemos destacar 3 atitudes de consumo:

1) A infidelidade em relação às marcas passou a se caracterizar como uma póstuma charmosa
2) A mistura de várias marcas é outras possibilidade de irreverência
3) O abuso do uso de peças desprovidas do estatuto das marcas tornou-se mais amplo e glamourizado. (low & high)


- tais posturas permitem uma “liberdade de escolha” do consumidor, que em última instância, começa, ele mesmo, a experimentar a aventura e o fascínio da criação, tornando-o seu próprio estilista.


O estiloso, aquele que tem estilo, aposta na diferenciação, criação, ele investe num diferencial, pode se tornar ícone e referência de moda, um formador de opinião.



“A gente quem faz a moda”


Moda não é só roupa, é atitude”


Esse processo de libertação vem se insinuando desde a década de 60, mas ganha certa radicalidade com a customização, que apareceu como reação à entediante logomania de fins da década de 90, quando tudo que importava era a grife.

“Vivia-se assim a glorificação do status de uma moda calcada em ícones de riqueza (Redley, Company, Cantão). A marca era o novo significante absoluto de identidade e prevalecia sobre o produto, que era meio de acesso à marca e sua exibição social. Verdadeira insígnia social, bastava então que o produto fosse logotipado, os consumidores, por seu lado, não procuravam mais que uma panóplia (escudo, brasão) ou uma etiqueta social a ser exibida”

(Lipovetsky, O luxo eterno)

Customização
, palavra oriunda da expressão inglesa custom made, significa ‘feito sob medida’, aparece justamente por conta da impossibilidade de se consumir marcas e , portanto, da vontade de brincar de “trabalhar”as peças, bordando, aplicando acessórios em busca de look único (diferenciação).

O consumidor contemporâneo, passa a ter um comportamento mais autoral em relação às suas escolhas, ainda que não ignore inteiramente as propostas que são lançadas no mercado pela indústria da moda, o consumidor hoje avalia, interfere, altera e brinca.


Fonte:
Cidreira, R.P.Moda e Estilo: Introdução a uma estética da moda. XVII encontro da Compós, UNIP, São Paulo, junho de 2008.
SABINO, Marco.Dicionário da Moda, Rio de Janeiro, Elsevier, 2007.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O direito que querer menos



Esse texto foi publicado na Folha em 2003. Faz tempo, mas é bem atual.



O direito de querer menos

Hermano Vianna


"Nos últimos anos, não é mais possível andar pelas ruas de Londres sem se deparar, em todos os lugares, com uma loja de sanduíches da cadeia Prêt-A-Manger, recinto de look pós-moderno onde podemos ter toda uma nova experiência fast-alimentar. As massas do mundo "desenvolvido" se sofisticaram demais para continuar consumindo hamburgers e coca-colas, mesmo quando estão com pressa.


Não fica bem, nem um pouco bem, serem surpreendidas num McDonald's, que não contente de ter fama de gerador de enfartes ainda é acusado de destruidor de florestas tropicais. Além disso, essas massas já foram doutrinadas a gostar de rúcula, tomate seco e capuccino - portanto seus novos paladares não admitem mais aqueles sabores rudes que um dia encantaram a sociedade de consumo em seus tempos primitivos, pré-digitalizados e pré-globalizados.Ser massa hoje, num país de primeiro mundo, é bem mais complicado.

Nada de prazeres fáceis e vulgares, nada de indústria cultural, nada de gostar do que é igual para todos. Agora todo mundo tem que ter personalidade e bom-gosto - sempre definidos por seu padrão de consumo.

O produto de massa contemporâneo vem com outra embalagem, para fingir que não é de massa, para aparentar que foi feito só para você, consumidor especial que sabe o que quer, e que para comprar o que quer tem que exercitar o tempo todo o seu sagrado direito da escolha - escolhendo sobretudo algo que o distingue dos outros mortais e atua como seu passe VIP para fora do tão-mal-falado-lugar-comum.

Ninguém mais quer estar em nenhum lugar comum, todo mundo quer ser diferente, e ser diferente é chique.Portanto, o novo McDonald's é o Prêt-A-Manger, até porque a cadeia da nova fast-food foi mesmo comprada pelo McDonald's.

Mas é uma fast food envergonhada, que salpica tudo - da decoração à bandeja - com "estilo" e "filosofia". Logo na vitrine, ou na home do web site, quem entra lê: "Nós percorremos distâncias extraordinárias para fugir dos obscuros aditivos, preservativos e agentes químicos comuns na maioria da "fast" food "prepared" que está no mercado hoje em dia."

O aviso "filosófico" ainda diz que todos os ingredientes contidos nos sanduíches e nas bagettes (é claro...) chegam frescos nas lojas todos os dias, e os sanduíches e as bagettes (é claro...) não comidos naquele mesmo dia são doados para instituições de caridade.
Fico imaginando os mendigos, que também são sofisticados no primeiro mundo, escolhendo entre um Crayfish and Avocado Salad e um Black Pepper Chicken on Bloomer Bread, que podem ser servidos nas opções Nut Free, Sesame Free, Dairy Free, ou GM Free (GM Free, para quem não sabe - como eu não sabia, significa que o sanduíche não contém nenhum ingrediente Geneticamente Manipulado, isto é, nada de soja ou milhos transgênicos nem nenhum de seus derivados).


Para facilitar também as escolhas dos sem-teto britânicos - e agora também de Nova York, Hong Kong, Tóquio e breve de todas outras cidades "desenvolvidas" do mundo - as embalagens contêm informações sobre valores de proteínas, de fibras, de gorduras (saturadas ou não), de carboidratos (dentre eles a quantidade de açúcares). Um educado lembrete diz que "já que quase todos os produtos Pret são feitos todos os dias a partir de ingredientes frescos os valores nutricionais são apenas médias."

Assim a empresa evita também que algum mendigo, ou consumidor elegante, a processe no futuro alegando que na sua bagette havia 2% mais carboidratos do que os "propagandeados".Ao ver tanta opulência numa simples lanchonete não pude deixar de suspirar pensando no meu querido e coitado Terceiro Mundo.


Aquilo tudo pode existir ali porque em algum lugar do mundo não existe nada parecido. Isso é matemática de primeiro grau. O planeta não tem recursos suficientes para proporcionar esse padrão de consumo de massas para todas as suas massas.

A Terra se esgotaria com quilômetros de plantação de rúcula orgânica de perder de vista e toneladas de tomates limpinhos (de preferência lavados com água mineral Evian...), secando ao sol para depois serem tratados com azeite extra-virgem preparado artesanalmente... (Isso para não falar nos direitos trabalhistas nível comunidade européia que são pagos para quem prepara cada sanduíche daqueles todos os dias!) Não cabe no mundo isso tudo para todos. Não que não fosse bom caber.

Mas não vai ter Fome Zero mundial que, nas atuais condições tecno-científicas da engenharia agronômica, vá produzir riqueza o bastante para alimentar o desejo de Crayfish e Avocado Salad (com molho thai, por favor) de toda a população do mundo, se ela vier a desejar tal coisa (como periga desejar se esse estilo de "sofisticação" continuar a se alastrar nessas proporções epidêmicas - como têm se multiplicado assustadoramente, por exemplo, as máquinas italianas de fazer café).

Isso porque estou falando "só" de comida. Imagine que espaço sobraria no mundo se todo mundo tivesse uma casa do tamanho e da "sofisticação" do tipo das que aparecem na Caras ou na Wallpaper (nada contra a Caras... nada contra a Wallpaper...) Ou como seria o trânsito de uma cidade como São Paulo, e os níveis de petróleo no mundo, se todo mundo pudesse ter, como todo mundo parece desejar por razões para mim inexplicáveis a não ser por mero exibicionismo, um Hummer personalizado.

Tudo bem, dizem que o carro é bom, dos melhores, já foi testado em guerras no deserto... Eu acredito em propaganda militar e marketing... Mas quem precisa mesmo dele? Quem, em sã consciência, trocaria um bom sistema transporte público por esses dinossauros - sofisticadíssimos, eu sei - cibermecânicos? Mas todo mundo, na hora H, troca a briga por um bom transporte público por um carro vistosão e grandão (coitados dos estacionamentos), se lixando para o mundo, para os outros.

E cada vez massas maiores têm acesso a esses bens e vão se empanturrar com tanta sofisticação. Assim caminha o capitalismo, e o fim da história, não é mesmo? Outro mundo é possível? Só se tiver casacos da Burberrys para todos, ou relógios Bulgari para todos? Não precisa tanto: mesmo churrasco no domingo para todos já faria um estrago danado.Tudo bem. Não quero estragar o domingão de ninguém. Todo mundo é filho de Deus, merece ter tudo do bom e do melhor que até hoje só poucos tiveram. Mas a que custo?

E porque todo mundo precisa mesmo desse tipo de "bom e melhor". Não há outros "bons e melhores" bem diferentes disso que hoje as massas parecem desejar? Não vou propor nenhuma patrulha ecopolítica radical para o bem da humanidade.

Mas não consigo deixar de achar que o mestre Agostinho da Silva estava coberto de desafiadora razão quando escreveu querendo algo bem distinto disso tudo:"Mas eu quero ver o primeiro homem que não deseja coisa nenhuma! Nunca fazemos treino para isso e, pelo contrário, todo mundo está organizado [...] para desejar alguma coisa mesmo quando não deseja. [...] Quer dizer, o mundo, na fase atual, está continuamente a semear desejos em nós, sendo esse um dos pontos mais importantes do mundo - como é então que podemos chegar a uma economia que não semeie em nós o desejo, mas sim a quietação e não a inquietação".

Grande questão, talvez a maior de todas: por que economia tem que ser inquieta por definição?Agostinho da Silva não era bobo. Ele sabia que foi a partir desse tipo de desejo que todo um parque industrial foi construído para produzir tantas coisas, e que é só por causa desse avanço tecnológico que podemos hoje pensar numa alternativa "quieta".

Sei que a pregação desse quietismo solidário soa ingênua, comunista, franciscana, reacionária (contra o "progresso"), moralista ou mesmo obscurantista. Parece um sonho do "vamos nos dar as mãos agora e trocar o luxo de poucos pelo simples e necessário para todos." Só uma mudança tremenda de mentalidade (Agostinho da Silva esperava o Quinto Império, com o Espírito Santo nos iluminando...), da concepção de "desenvolvimento" (para o Brasil se "desenvolver" precisamos mesmo derrubar as florestas e plantar soja?"), ou mesmo da natureza humana, poderia colocar em cheque essa cruel máquina de fabricar inveja, eterna insatisfação e desejos sempre maiores? Desejos por quê? Por uma bolsa Louis Vuitton?!!!


Também acho que não sou totalmente bobo. Consigo evidentemente admirar a beleza de uma bolsa Vuitton desenhada por Takashi Murakami. Acho bacana, bem potlach, que alguém gaste tanto dinheiro para comprar essa bolsa - adoro ver gente queimando dinheiro, quanto mais dinheiro melhor. Mas também sei que o mundo poderia viver muito bem sem essa bolsa (ou que o preço de uma bolsa boa e bonita poderia ser infinitamente mais barato), e não seria um lugar menos interessante por isso.

E então não consigo evitar de sempre ver que há algo de podre (a tal cruel máquina de reprodução de inveja, insatisfação e também humilhação) na bolsa Murakami, no sanduíche do Prêt-A-Manger (por mais frescos que eles sejam), ou na hipnótica branquidão dos lençóis de algodão egípcio do Hotel Fasano (isso para não falar no assento térmico da privada do Emiliano).

Sempre vai ter alguém que tem mais, ou vai ter um produto novo - e glamurosamente caro - que você não tem e não pode ter (e o fato de você não precisar ter não tem a menor importância, quando o desejo de ter é o que move tudo). Um restaurante de luxo vai ter que sofisticar e encarecer sua culinária se quiser se manter "acima" dos fast-food sofisticadíssimos que o sucesso de massa do Prêt-A-Manger e do café italiano apenas anuncia de forma tímida e canhestra (ninguém realmente "sofisticado" come no Prêt-A-Manger).

Com as massas do primeiro mundo cada vez ganhando mais dinheiro, uma loja como a Prada vai ter que aumentar constantemente e astronomicamente seus preços a cada estação se quiser manter o interesse de uma clientela que compra não produtos mas sim exclusividade, aquilo que todo mundo não pode comprar.

Pois sem exclusão, nada disso existiria: se uma roupa é usada por qualquer um, ela necessariamente - no regime de moda no qual vivemos - perde o seu charme. E assim por diante: se todo mundo puder comer nesse restaurante, dormir nesse hotel, viajar nessa primeira classe, todo esse mundo desmoronaria. É preciso deixar sempre gente de fora para a festa da sala VIP ser animada.

O que estou pregando então? Uma comunidade hippie globalizada? Uma nova revolução cultural maoísta? Pretinhos básicos, e nada mais, para todas as moças? Nada disso parece ter dado muito certo, não é? Porque todo mundo está ficando cada vez mais louco ao consumir e não há - até segunda ordem - plano de fuga no shopping center planetário (fugir para onde? até em Cuba as pessoas se jogam no mar revolto só para fazer compras em Miami... e mesmo no Butão, que não tinha TV até os anos 90, agora já tem internet...).

Então esta é minha única maneira de terminar este texto com um elegante otimismo: quero apenas menos, um pouquinho menos. Vocês que são brancos, e precisam realmente comprar isso tudo, que se entendam. Não vou nem concluir dizendo que tudo isso me parece um pouco cafona (o que seria muito óbvio - até porque eu gosto de brega!), não vou nem insinuar que não é mais nem um espetáculo interessante contemplar o barulho produzido por tanta insatisfação (e acho que mesmo estratégias situacionistas de desconstrução desses desejos apenas aumentam o barulho, e a quantidade de coisas e ações que atravancam o mundo...)

Como diz o Wado, numa canção que adoro: eu vou ficar quietinho, eu vou ficar no meu canto. Talvez essa seja a atitude mais radical"

Publicado no Mais!, Folha de S. Paulo, 21/12/2003